Esta seção foi criada com a finalidade de desmascarar e divulgar crimes do MST e outras quadrilhas semelhantes.
Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
Homeschooling: uma alternativa constitucional à falência da Educação no Brasil
Se o Ministério da Educação estivesse submetido às mesmas regras de mercado que uma empresa, já teria falido há décadas.
Alexandre Magno Fernandes Moreira
Se o Ministério da Educação estivesse submetido às mesmas regras de mercado que uma empresa, já teria falido há décadas. Fundado em 1930 e com o orçamento de vários bilhões de reais para 2008, o MEC conseguiu a façanha de produzir um dos piores sistemas educacionais do mundo. Nas avaliações internacionais, o Brasil sempre está entre os últimos lugares, mesmo quando os exames são realizados em alunos de escolas privadas, em tese, os melhores. E as tão badaladas universidades públicas? Em recente ranking mundial, nenhuma delas ficou entre as cem melhores.
Esses dados não são novidade. Pelo contrário, a opinião pública já está exausta de vê-los repetidos todos os anos. A novidade é a revolta de um casal contra esse estado de coisas. Eis, em síntese, sua história:
"Um casal de Timóteo (216 km de Belo Horizonte) luta na Justiça pelo direito de ensinar seus filhos em casa. Adeptos do 'homeschooling' (ensino domiciliar), movimento que reúne 1 milhão de adeptos só nos EUA, eles tiraram os filhos da escola há dois anos, o que é proibido pela legislação brasileira. Eles atribuem a decisão à má qualidade do ensino do país."[1]
Esse movimento (traduzido como "estudo em casa") existe há décadas em diversos países, como Estados Unidos, França, Reino Unido, Irlanda e Austrália. Não é apenas o baixo nível educacional que motiva os pais a educarem seus filhos em casa, mas também razões de ordem religiosa[2] – ambiente degradado das escolas para desenvolver o caráter, e oposição aos valores ensinados nas escolas – e, também, questões práticas, como dificuldades de deslocamento e falta de vagas em boas escolas.
É preciso ressaltar que a escola não é apenas um lugar em que se repassam informações, mas também onde são transmitidos todos os tipos de valores. Recente pesquisa indicou que a imensa maioria dos professores, de escolas públicas e privadas, considera como principal missão da escola a veiculação de ideologias (no jargão politicamente correto, "formar cidadãos") e não de informações. Esse conjunto de valores é, na maioria das vezes, bem diverso daqueles professados pelos pais.
Mais ainda: extensas pesquisas têm demonstrado que, na formação do caráter individual, os companheiros de infância são influências muito mais poderosas que os pais[3]. Nas escolas, os pais têm pouco ou nenhum controle sobre essas interações, que podem ser bastante desastrosas e traumáticas, como no caso do bullying[4], prática corriqueira entre os alunos.
Neste ponto, faz-se necessário responder o argumento utilizado de forma reiterada contra o homeschooling: essa forma de educar provoca o isolamento social, com sérios prejuízos psicológicos. Na verdade, há vasto material demonstrando exatamente o contrário: os educadores norte-americanos Raymond e Dorothy Moore unificaram os dados de mais de 8 mil pesquisas a respeito do assunto e chegaram a conclusões estarrecedoras. Eles apresentaram evidências de que a educação formal antes da faixa dos 8 aos 12 anos não somente é desnecessária, mas também traz prejuízos psicológicos, como maior probabilidade de delinqüência juvenil. De modo consistente, nos exames, os educados em casa tiveram quocientes de inteligência superior que aqueles educados na escola[5].
No Brasil, a questão, aparentemente, está fechada no campo jurídico. Em primeiro lugar, a Constituição de 1988, dispõe que:
"Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
(...)
§ 3º - Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola."
Em seguida, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), determina que:
"Art. 55. Os pais ou responsável têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino".
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/96) reitera a obrigação estabelecida no ECA:
"Art. 6º É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula dos menores, a partir do sete anos de idade, no ensino fundamental".
Finalmente, o Código Penal assevera que o comportamento divergente será considerado crime de abandono intelectual:
"Art. 246. Deixar, sem justa causa, de prover a instrução primária de filho em idade escolar.
Pena – Detenção de 15 (quinze) dias a 01 mês, ou multa".
O Superior Tribunal de Justiça tem julgado no sentido da impossibilidade, no Brasil, do ensino em casa:
"ENSINO EM CASA. FILHOS.
Trata-se de MS contra ato do Ministro da Educação, que homologou parecer do Conselho Nacional de Educação, denegatório da pretensão dos pais de ensinarem a seus filhos as matérias do currículo de ensino fundamental na própria residência familiar. Além de, também, negar o pedido de afastá-los da obrigatoriedade de freqüência regular à escola, pois compareceriam apenas à aplicação de provas. A família buscou o reconhecimento estatal para essa modalidade de ensino reconhecida em outros países. Prosseguindo o julgamento, a Seção, por maioria, denegou a segurança ao argumento de que a educação dos filhos em casa pelos pais é um método alternativo que não encontra amparo na lei ex vi os dispositivos constitucionais (arts. 205, 208, § 2º, da CF/1988) e legais (Lei n. 10.287/2001 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação – art. 5º, § 1º, III; art. 24, I, II e art. 129), a demonstrar que a educação é dever do Estado e, como considerou o Min. Humberto Gomes de Barros, é, também, formação da cidadania pela convivência com outras crianças, tanto que o zelo pela freqüência escolar é um dos encargos do poder público. MS 7.407-DF, Rel. Min. Peçanha Martins, julgado em 24/4/2002."
Pois bem. No caso citado inicialmente, os pais são processados, civil e criminalmente, e podem perder a guarda dos filhos.
Pergunta-se: eles cometeram atos ilícitos, devendo ser punidos com e perda da guarda (ou até do poder familiar) e com detenção? A meu ver, a resposta deve ser negativa, como será demonstrado a seguir.
Em primeiro lugar, a constitucionalidade ou não de qualquer ato deve ser mensurada levando-se em conta o conjunto da Constituição e não um artigo isolado. Esse é o princípio da unidade da Constituição, segundo o qual "as normas constitucionais devem ser vistas não como normas isoladas, mas como preceitos integrados num sistema unitário de regras e princípios, que é instituído na e para a própria Constituição". Intimamente ligado a ele, está o princípio da concordância prática ou da harmonização, que "consiste, essencialmente, numa recomendação para que o aplicador das normas constitucionais, em se deparando com situações de concorrência entre bens constitucionalmente protegidos, adote a solução que otimize a realização de todos eles, mas ao mesmo tempo não acarrete a negação de nenhum".[6]
Assim, o art. 208, I e § 3°, da Constituição deve ser interpretado em conjunto com outros artigos para que seja encontrada a solução hermenêutica mais adequada. Ora, o art. 5° protege a liberdade de expressão em diversos incisos (IV a IX), posto que "é um dos mais relevantes e preciosos direitos fundamentais, correspondendo a uma das mais antigas reivindicações dos homens de todos os tempos". [7] O inciso VIII determina que "ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei". A falta de previsão legal da prestação alternativa não inviabiliza o exercício do direito, pois todas as normas que prevêem direitos individuais têm aplicabilidade imediata. Basta a utilização do superprincípio da proporcionalidade.
O citado inciso refere-se a uma das maiores proteções do indivíduo contra os excessos da democracia (do poder da maioria) em sua vida. Na lição de Gilmar Mendes e outros:
"A objeção de consciência consiste, portanto, na recusa em realizar um comportamento prescrito, por força de convicções seriamente arraigadas no indivíduo, de tal sorte que, se o indivíduo atendesse ao comando normativo, sofreria grave tormento moral. (...) A objeção de consciência admitida pelo Estado traduz forma máxima de respeito à intimidade e à consciência do indivíduo. O Estado abre mão do princípio de que a maioria democrática impõe as normas a todos, em troca de não sacrificar a integridade íntima do indivíduo".[8]
A objeção de consciência aplica-se perfeitamente ao caso do homeschooling. Os pais que aplicam essa forma de educar aos filhos discordam, de forma radical, do sistema educacional imposto no País. E, se há bons motivos para que isso ocorra em países desenvolvidos, mais ainda pode se dizer no Brasil, cujas crônicas deficiências educacionais são mais que conhecidas. O requisito exigido pela Corte Européia de Direitos Humanos, ou seja, de que "a objeção nasça de um sistema de pensamento suficientemente estruturado, coerente e sincero" [9], estará, de modo geral, satisfatoriamente preenchido nesse caso[10].
O caráter excepcionalíssimo da objeção de consciência impede seu uso rotineiro e torna, na prática, os pais dependentes do Poder Judiciário sempre que quiserem, de fato, exercê-lo.
Há, porém, outros pontos de destaque no tocante à constitucionalidade do homeschooling.
Utiliza-se, neste ponto, a clássica divisão entre normas materiais e normas instrumentais, ou, em termos constitucionais, entre direitos e garantias. Os primeiros definem faculdades ou obrigações a serem exercidas pelos destinatários, enquanto os últimos estipulam instrumentos para que esses direitos sejam assegurados. Tomando-se uma referência bastante conhecida, o direito de locomoção é garantido pelo habeas corpus.
Pois bem. O direito à educação é estabelecido no art. 6° da Constituição. Enquanto isso, o art. 208 dispõe sobre os meios que o Estado deve colocar à disposição dos indivíduos para que esse direito seja efetivado. Se esse mesmo direito for concretizado por outros meios, tão ou mais eficientes, a atuação do Estado torna-se desnecessária e até prejudicial. Trata-se da aplicação do conhecido princípio segundo o qual "não há nulidade sem prejuízo".
Além disso, o princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado tem sido substituído pelo superprincípio da proporcionalidade ou da razoabilidade, que se desdobra em:
princípio da conformidade ou da adequação de meios: a medida adotada (legal, judicial ou administrativa) deve ser apta a atingir os fins a que se destina;
princípio da necessidade: a liberdade do indivíduo deve ser restrita o mínimo possível. De acordo com a lição de Silva Neto[11],
"A opção feita pelo legislador ou o executivo deve ser passível de prova no sentido de ter sido a melhor e única possibilidade viável para a obtenção de certos fins e de menor custo ao indivíduo. O atendimento à relação custo-benefício de toda decisão político-jurídica a fim de preservar o máximo possível do direito que possui o cidadão";
princípio da proporcionalidade em sentido estrito: requer a ponderação entre os bens sacrificados e aqueles protegidos pela norma.
Para todos aqueles que conhecem minimamente a situação de extremo descalabro em que se encontra a educação brasileira, torna-se evidente a desproporcionalidade da ação estatal, que desobedece ao princípio da adequação ao não demonstrar sua total inaptidão de alcançar o resultado pretendido, qual seja, fornecer educação de qualidade; que desobedece ao princípio da necessidade, ao constituir-se em opção mais gravosa ao indivíduo para alcançar esse objetivo; finalmente, é desobedecido o princípio da proporcionalidade em sentido estrito ao sacrificar-se em demasia outros bens essenciais. Esses bens sacrificados, sem que haja o correspondente retorno razoável, serão vistos a seguir.
O primeiro deles é o princípio do pluralismo político (Constituição Federal, art. 1°, V):
"Direito fundamental à diferença em todos os âmbitos e expressões da convivência humana – tanto nas escolhas de natureza política, quanto nas de caráter religioso, econômico, social e cultural, entre outras –, um valor fundamental (...). O indivíduo é livre para se autodeterminar e levar sua vida como bem lhe aprouver, imune a intromissões de terceiros, sejam eles provenientes do Estado, por tendencialmente invasor, ou mesmo de particulares"[12].
Como a escola obrigatória, nos rígidos moldes definidos pelo governo, contraria o princípio fundamental do pluralismo político? Primeiramente, os pais não têm opção: devem matricular seus filhos em escolas que ensinam determinadas matérias, cuja utilidade pode ser bem questionável, e não outras, que poderiam ser bem mais úteis de acordo com o ponto vista deles. De nada adianta considerar, por exemplo, que aprender física é inútil e que seria mais útil aprender a cozinhar. A discordância dos pais quanto à grade curricular é simplesmente desprezada, em nome de um "conteúdo programático ideal", como se isso fosse humanamente impossível[13].
Mais agrave ainda é a constatação de que a função básica da educação, transmitir informações, é relegada em nome de uma mítica missão de "formar cidadãos". Tão bela expressão serve apenas para mascarar a pura e simples doutrinação ideológica. Recente pesquisa[14] demonstrou cabalmente que, enquanto a educação brasileira consegue as piores colocações nos rankings internacionais, os professores, em massa, consideram seu principal trabalho incutir determinada ideologia nos alunos.
Os números da pesquisa são extremamente contundentes: 78% dos professores consideram que a principal missão da escola é "formar cidadãos", enquanto apenas 8% assinalam "ensinar as matérias". 80% dos professores consideram que seu discurso é politicamente engajado e apenas 20% o consideraram politicamente neutro. Engajamento político significa, nesse caso, admirar, em primeiro lugar, Paulo Freire (29% dos professores), seguido por Karl Marx (10%). Significa também que 86% dos professores têm conceito positivo sobre Che Guevara e nenhum declara ter conceito negativo. Lênin foi positivamente avaliado por 65%, enquanto sua avaliação negativa foi de apenas 9%.
Ressalte-se: esses dados referem-se tanto a escolas públicas quanto a escolas privadas. Há, pelo menos nas ciências humanas, total hegemonia da doutrina esquerdista, apesar de reiteradas pesquisas demonstrarem que a população brasileira define-se, majoritariamente, como conservador de direita em diversas questões, como aborto e drogas. Assim, as crianças e os adolescentes no Brasil vivem um situação esquizofrênica: os mesmos valores aprendidos em casa são sistematicamente negados na escola.
Se houvesse, de fato, o pluralismo político determinado como fundamental pela Constituição da República, os pais, verdadeiros responsáveis pela transmissão de valores, poderiam escolher a escola que estivesse de acordo com seu sistema de pensamento. Assim, pais islâmicos poderiam escolher escolas islâmicas para seus filhos, pais ateus poderiam escolher escolas atéias, pais liberais poderiam escolher escolas liberais, etc. Essas opções não existem no Brasil. Mesmo em escolas confessionais, vinculadas a determinada religião, é sentido o predomínio da doutrina esquerdista[15].
Nesse ponto, chegamos àquele que é considerado um princípio supraconstitucional, que deve orientar a interpretação de todo o sistema normativo: a dignidade da pessoa humana, ou seja, o ser humano é, no famoso dizer de Kant, um fim em si mesmo e também o de quaisquer estruturas jurídicas ou sociológicas, como Estado, nação, povo, governo, Administração Pública, partido político, classe social, etc. Assim, o único fim é o ser humano, tudo o mais é instrumento que deve atuar em seu favor, não o contrário.
Assim também é o entendimento de Clemerson Merlin Cleve:
"(...) o Estado é uma realidade instrumental (...). Todos os poderes do Estado, ou melhor, todos os órgãos constitucionais, têm por finalidade buscar a plena satisfação dos direitos fundamentais. Quando o Estado se desvia disso está, do ponto de vista político, se deslegitimando, e do ponto de vista jurídico, se desconstitucionalizando"[16].
O desrespeito à dignidade humana é evento cotidiano nas escolas brasileiras, seja pela submissão dos alunos a ensino de péssimo nível, seja pela sua instrumentalização, segundo a qual deixam de ser fins em si mesmos e tornam-se instrumentos para a doutrinação ideológica.
A ironia histórica é que as constituições anteriores, mesmo as outorgadas em 1937 e 1967, referiam-se expressamente ao ensino no lar, enquanto a "Constituição Cidadã" de 1988 incluiu dispositivo autoritário que obriga a matrícula na rede formal de ensino, desprezando a vontade dos pais. Nesse ponto, é relevante aprender com a tão criticada constituição de 1937, que estabeleceu a ditadura do Estado Novo: "art. 125. A educação integral da prole é o primeiro dever e o direito natural dos pais. O Estado não será estranho a esse dever, colaborando, de maneira principal ou subsidiária, para facilitar a sua execução ou suprir as deficiências e lacunas da educação particular".
A educação dos filhos é uma questão eminentemente privada que, como qualquer questão privada, somente pode admitir a interferência do Estado quando esta revelar-se não só benéfica, mas também imprescindível. A atuação estatal em todos os domínios da sociedade, além de prejudicial ao bem-estar individual, é característica marcante dos regimes totalitários e não das democracias. Naqueles regimes, todos os interesses individuais devem estar subordinados ao Estado.
No caso relatado inicialmente, tem-se um procedimento que, sobre uma série de sedimentos aparentemente legítimos, é, simplesmente, uma perseguição de cunho ideológico. O Estado não aceita que os pais eduquem seus filhos de maneira diversa daquela que é rigidamente estabelecida. Trata-se, por fim, de um nítido desrespeito à liberdade de expressão.
A esse respeito, é extremamente pertinente o questionamento do filósofo Olavo de Carvalho:
Será que não está na hora de tentar a única idéia que nunca foi tentada, isto é desregulamentar e desburocratizar a educação brasileira, reservar ao governo um papel meramente auxiliar na educação, deixar que a própria sociedade tenha o direito de ensaiar soluções, criar alternativas, aprender com a experiência?[17]
A história adquire contornos mais assombrosos com o fato de que os pais estão sendo processados criminalmente, pelo Ministério Público, pelo crime de abandono, exatamente o órgão que tem a missão fundamental de defender os direitos humanos. O absurdo da medida pode ser constatado por outro fato extremamente significativo: no caso relatado, os filhos, de 14 e de 15 anos, foram aprovados no vestibular da Faculdade de Direito de Ipatinga (MG) em 7° e em 13° lugar, respectivamente.
A acusação baseia-se em uma interpretação literal e inconstitucional do art. 246 do Código Penal, que incrimina a conduta de "deixar, sem justa causa, de prover a educação primária de filho em idade escolar". Ora, já está bastante provado que a educação está sendo provida. De acordo com a citada reportagem: "Os meninos aprendem retórica, dialética e gramática, aritmética, geometria, astronomia, música e duas línguas estrangeiras – inglês e hebraico. Ao todo, estudam em média seis horas por dia".
Mesmo que a "educação primária" fosse considerada como a freqüência habitual à rede formal de ensino, não haveria crime no caso, pois, como colocado na lei, a existência de "justa causa" torna o fato atípico. Ora, motivos justos e razoáveis para retirar os filhos da escola, definitivamente, não faltam no Brasil.
Modernamente, a doutrina penal somente tem aceito a existência de crime quando houver efetiva lesão ao bem jurídico protegido que, no caso, é a educação a ser fornecida a qualquer criança e adolescente. Ora, se o bem o protegido não foi lesado nem colocado em risco concreto, não há que se falar em crime. Punir conduta que não provoca nem pode provocar nenhum prejuízo é como receitar um poderoso antibiótico para alguém que não tem nenhuma doença. Além de não adiantar nada, ainda pode lhe fazer mal.
Finalmente, a solução mais condizente com a proteção do indivíduo contra os costumeiros excessos do Estado seria uma emenda constitucional nos seguintes termos:
"Art. 208, § 3º. O ensino fundamental obrigatório poderá ser ministrado no lar pelos próprios pais, ou por professores qualificados contratados pelos pais. A lei definirá apenas a comprovação anual do rendimento escolar, dando liberdade para a escolha ou elaboração de currículo, sem nenhuma imposição de caráter político ou ideológico"[18].
Enquanto diversos grupos de interesses reivindicam o respeito às suas peculiaridades (o chamado "direito à diferença"), sem nenhum tipo de discriminação, e até exigem do Estado medidas protetivas", como a ampliação dos casos de crimes de racismo, os pais, no caso relatado, não utilizam nenhuma bandeira política ou ideológica nem querem nenhuma providência do governo. Pelo contrário, querem apenas que seja respeitada sua opção, personalíssima e indelegável, mesmo ao Estado, de educar seus filhos da forma como consideram melhor.
ALEXANDRE MAGNO FERNANDES MOREIRA: Procurador do Banco Central do Brasil em Brasília. Especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade Estácio de Sá. Professor de Direito Penal e Processual Penal na Universidade Paulista (Unip). Professor de Direito Penal, Processual Penal e Administrativo nos cursos Objetivo e Pró-Cursos. Membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Co-autor do livro "Direito Penal Acadêmico" (no prelo). Home Page: http://www.alexandremagno.com
Bibliografia
BINENBOJM, Gustavo. Uma teoria do Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Renovar, 2006.
MENDES, Gilmar et al. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2008.
MOORE, Raymond, Dennis e Dorothy. Better late than early: A New Approach to Your Child's Education. Reader's Digest Association; 1st edition (August 1989).
PINKER, Steve. Tábula rasa. A negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
[2] Situações em que os pais, fortemente vinculados a um religião, consideram que o ambiente escolar é prejudicial à formação da criança.
[3] Cf. Tábula Rasa, a Negação Contemporânea da Natureza Humana, de Steve Pinker.
[4] São todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder. Pesquisas indicam que o bullying é universal, ou seja, ocorre em qualquer tipo de escola e em diversos países.
[5] Cf., dos autores, a obra Better Late Than Early (em tradução livre, "Melhor Tarde que Cedo").
[6] MENDES, Gilmar at al. Curso de Direito Constitucional, p. 114.
[7] Idem, p. 359.
[8] Idem, p. 414.
[9] Idem, ibidem.
[10] Em rápida pesquisa ao site www.amazon.com, foram encontrados mais de 4.500 livros sobre homeschooling, demonstrando que a objeção, nesse caso, está bastante fundamentada.
[11] 2006, p. 115-116
[12] Mendes, Coelho e Branco, op. cit., p. 156.
[13] Essa falta de realismo é bem ilustrada pela recente lei que inclui as matérias de filosofia e de sociologia no currículo escolar. Seria uma escolha até que bem defensável se não fosse por um detalhe: não existem bacharéis em filosofia e em sociologia no número suficiente para ministrar essas matérias.
[14] Publicada na Revista Veja, de 20 de agosto de 2008.
[15] Essa situação não poderia ser diferente pelo simples fato de que quase todos os bacharéis formados em ciências humanas estejam vinculados ao esquerdismo.
[18] Trata-se de interessante sugestão formulada por Julio Severo no artigo: O Direito de Escolher: A educação escolar em casa no Brasil. Disponível em http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4427. Acessado em 23.8.2008.
Conforme a NBR 6023:2000 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: MOREIRA, Alexandre Magno Fernandes. Homeschooling: uma alternativa constitucional à falência da Educação no Brasil. Clubjus, Brasília-DF: 26 ago. 2008. Disponível em: . Acesso em: 27 ago. 2008.
A possibilidade de coletivização forçada das propriedades rurais no país está a um passo de ser implantada, por mero ato administrativo, sem que a opinião pública tome conhecimento dos fatos.
O Sindicato Rural de Ortigueira - SRO, no Estado do Paraná, fez circular pela internet um trabalho em que mostra como através de atos puramente aadministrativos, o Executivo está expropriando proprietários rurais, lançando muitos na miséria. O estudo é claro e fácil de entender pois está articulado, lógico e didático. E irrefutável, pois está a mostrar fatos que estão sendo praticados neste momento. O SRO dá como exemplo o caso de demarcação de reservas indígenas de 10 milhões de hectares no Mato Grosso do Sul. Mas aplica-se às questões da Reforma Agrária, da Revolução Quilombola e daquilo que já podemos chamar de Revolução Ambiental. Em todo o país, coletivizando 70% do território nacional. Uma terrivel e verdadeira ditadura administrativa. O Sem medo da Verdade subscreve totalmente os termos deste estudo, que trianscreve em sua íntegra.
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O Executivo e os atos administrativos
Contexto
Há medidas legais, que, de tão corriqueiras, terminam passando por normais. A sua normalidade, porém, pode ser o signo de uma anormalidade, que afeta profundamente a vida institucional do país. Refiro-me à profusão de atos administrativos editados pelo Poder Executivo, que possuem força de lei e terminam por regrar a vida das empresas e dos cidadãos em geral. São decretos, portarias, instruções normativas e resoluções, editados em vários escalões, que possuem uma enorme influência no cotidiano de cada um, no exercício da propriedade privada e nos investimentos.
Atos administrativos
Tais atos administrativos têm força de lei, substituindo-se, muitas vezes, à lei propriamente dita. Exemplifiquemos alguns: decretos presidenciais, decretos ministeriais, portarias, instruções normativas e resoluções do Incra, da Funai, do Ibama e de suas congêneres nos níveis estaduais e municipais, afetando profundamente tanto as cidades como o campo. Proprietários urbanos e rurais, empresas dos mais diferentes tipos, são submetidos a um conjunto de normas que impede, muitas vezes, os seus investimentos, prejudicando o desenvolvimento econômico e social, ao contrário do que é sustentado por aqueles que assim regulamentam. Esses dizem trabalhar pelo bem público, quando, muitas vezes, estão simplesmente concentrando decisões nas mãos do Estado que passa a decidir sobre tudo o que diz respeito à vida individual e empresarial.
Estado organizativo
O Executivo passa a operar como um verdadeiro Poder Legislativo, organizando o conjunto da sociedade. Na verdade, ele começa a tomar conta da vida social, encarnando um suposto bem coletivo que passaria a decidir aquilo que é melhor para todos. É como se o Estado e os seus burocratas dos mais diferentes escalões tivessem um saber que lhes permitiria abarcar toda a sociedade. Agem como se fossem representantes de uma certa onisciência que, graças à sua potência, poderia ser capaz de realizar o seu projeto, identificado, reitero, ao que entendem, por sabedoria, por bem comum. A sociedade se vê assim reduzida a um pólo passivo, que seria simplesmente moldado pelo Poder Executivo, que a entende à maneira de um corpo inerte que, simplesmente, deveria ser comandado. A sociedade perde, então, a sua autonomia e a sua independência, mostrando-se incapaz de decidir por si mesma.
A legalidade
E tudo isto é feito legalmente, segundo dispositivos constitucionais perfeitamente estabelecidos. Um funcionário do Incra, da Funai ou do Ibama, sempre poderá dizer que agiu segundo a lei, tendo seguido todos os passos juridicamente necessários. Como fica uma empresa ou um cidadão diante de tal situação? Imediatamente fica completamente desarmado, tendo de recorrer a um advogado para reivindicar os seus direitos. Produz-se, aqui, uma oposição entre os direitos dos cidadãos, dos empresários e dos empreendedores e os atos administrativos de um Estado que pretende tudo organizar graças a burocratas designados expressamente para essas funções. Acontece, porém, que os atos administrativos passam a vigorar imediatamente após a sua promulgação, enquanto os direitos tardam a ser exercidos pela lentidão do Poder Judiciário. Cria-se, então, situações irreversíveis, pois uma empresa, enquanto procura fazer valer os seus direitos, deve seguir atos administrativos que afetam enormemente o seu funcionamento. Os seus prejuízos, praticamente, são irrecuperáveis, não podendo ser buscados.
A insignificância do Legislativo
O perigo dessa centralização do poder do Estado nas mãos do Executivo reside na insignificância à qual se vê reduzido o Poder Legislativo. Este se encontra ainda mais travado por uma outra forma de legislar do Poder Executivo, a que se faz por intermédio de medidas provisórias. Como se sabe, essas têm força de lei e devem ser necessariamente votadas pelo Poder Legislativo num prazo determinado. O que faz o Executivo? Abarrota o Legislativo de medidas provisórias, de tal maneira que esse Poder deixe de exercer as suas funções. O Executivo passa a legislar de duas maneiras: através de medidas provisórias e através de atos administrativos, vindo, na verdade, a prescindir completamente do Poder Legislativo. Enquanto a opinião pública é capturada por discussões que envolvem o uso de medidas provisórias, o Executivo passa célere, legislando por atos administrativos, que afetam em profundidade a vida da sociedade. E esses atos administrativos, de profunda repercussão, não chegam muitas vezes nem à esfera pública.
Parlamentares e funcionários
Cria-se, assim, uma situação completamente esdrúxula. Um funcionário de terceiro escalão, como presidentes do Incra, Funai e Ibama, passam a legislar muito mais do que deputados e senadores. Enquanto esses lutam pelos holofotes midiáticos, aqueles são muito mais eficazes nos trabalho legislativo. Seus atos administrativos são de validade e efeitos imediatos, não necessitando passar por instâncias legislativas. Ou seja, tais funcionários e órgãos estatais possuem muito mais poder legislativo do que os parlamentares. O problema se vê ainda agravado pelo fato de tais burocratas agirem, como observado, segundo uma estrutura estatal que impõe o que considera como devendo ser a norma que deveria reger a vida do cidadão em geral. Mais ainda, tais presidentes e diretores de órgãos estatais são designados pelo governo que os escolhe segundo afinidades partidárias e ideológicas. São, por assim dizer, comissários do governo que implementam uma política previamente determinada.
Ideologia
Aqui, se faz particularmente presente a ideologia de tais funcionários, escolhidos segundo a sua afinidade política e a sua plasticidade, a sua flexibilidade, em seguir diretrizes de partidos, de movimentos ditos sociais e organizações religiosas. A palavra comissário é, então, apropriada, por significar um funcionário que age de acordo com uma ideologia que procura impor à sociedade um determinado padrão de conduta e uma noção do bem tal como a entende. No nosso contexto específico, presenciamos a ação de tais comissários voltada para relativizar e circunscrever a propriedade privada, como se a sociedade pudesse existir livremente sem esse direito fundamental seu. Órgãos como o Incra, Funai e Ibama possuem uma forte ideologia contrária à propriedade privada, como se essa fosse um mal que deveria ser combatido. Seus comissários seriam os agentes dessa ação "salutar".
Empresários
Enquanto corolário dessa posição ideológica, os empresários passam a ser considerados como "maldosos", "corruptos", "egoístas", pessoas completamente descompromissadas com o bem comum (segundo evidentemente o entendimento dos comissários). Não deveria, portanto, causar espanto que o lucro seja criticado enquanto fonte ilegítima e os investimentos que o produzam condenados. Maniqueisticamente estabelece-se uma luta enviesada entre o "bem" e o "mal", o primeiro sendo representado pelos comissários e seus sustentáculos partidários e dos ditos movimentos sociais e o segundo sendo representado pelos proprietários urbanos e rurais, pelas empresas em geral. Reproduz-se, assim, o esquema "esquerda" e "direita", sendo os primeiros os "progressistas" (que, na verdade, impedem qualquer progresso) e os segundos os "conservadores" (que, na verdade, querem o progresso). O próprio sentido das palavras passa a ser deturpado, vindo a significar aquilo que esses agentes da esquerda e os seus formadores de opinião procuram impor. A questão de fundo, porém, consiste numa oposição muito mais relevante, entre os que defendem a socialização dos meios de produção, a abolição da propriedade privada, do estado de direito e das liberdades, e os que advogam por uma economia de mercado, pelo estado de direito, pelas liberdades e pela democracia.
Exemplo – Mato Grosso do Sul
Sem que tenha ainda ganho a opinião pública, sendo, neste sentido, ainda amplamente desconhecido, Funai, do Ministério da Justiça, a partir de um Termo de Ajustamento de Conduta assinado com o Ministério Público Federal, editou várias portarias, no dia 10 de julho, para estudos de demarcação de uma área indígena. A referida área encontra-se no sul deste Estado, podendo vir a abarcar 10 milhões de hectares. Observe-se que se trata de uma zona rica, de terra fértil e povoada, incluindo proprietários rurais de longa tradição de empreendorismo e de investimento. Os que lá vivem, até então, usufruíam da segurança própria do exercício da propriedade privada quando, subitamente, são jogados numa situação de completa insegurança. E como isto se faz? Por intermédio de um mero ato administrativo, que passa a vigorar quando de sua publicação no Diário Oficial. Observe-se que os estudos em questão serão feitos por uma equipe de antropólogos, agrônomos e historiadores designados pelo próprio Incra. A sua tradição na área consiste em acatar tais estudos, contando com o apoio dos movimentos sociais, no caso, o Conselho Indigenista Missionário, órgão da Igreja e afim ao MST e à Comissão Pastoral da Terra (CPT). Não esqueçamos que foi a CPT que criou o MST.
A propriedade
Logo, temos a seguinte situação. Uma equipe comandada por um antropólogo-coordenador passa a ter a decisão final sobre uma imensa área que pode afetar toda a vida de proprietários e também de uma unidade federativa, que teria, por assim dizer, uma parte do seu território amputada. Um antropólogo, nesta cadeia de atos administrativos, tem muito mais poder do que um parlamentar e mesmo do governador, sendo o seu ato, por assim dizer, soberano. Ou seja, uma cadeia de atos administrativos pode vir a redesenhar completamente as relações de propriedade e a vida de uma entidade federativa, no caso o estado do Mato Grosso do Sul. O direito de propriedade, constitucionalmente reconhecido, pilar de uma sociedade livre e democrática, se vê relativizado, fragilizado, por um ato administrativo promulgado por um órgão de Estado, que deveria seguir a Constituição. Uma portaria se coloca contra a Constituição e passa a valer mais do que ela. Este é um paradoxo legal ao qual se encontra submetido o Estado brasileiro.
Publicado pelo Boletim informativoSem Medo da Verdade
Justo no momento em que a sociedade tem pela primeira vez a chance de se livrar dos crimes do MST, ou pelo menos vê-los como tais pela Justiça, vem agora um simpatizante da função social da propriedade posicionar-se contra o Procurador Gilberto Thums.
Carlos Reis
Desde que o Procurador Gilberto Thums veio a público manifestar-se contra as ações criminosas do MST, pedindo inclusive o seu enquadramento por uma ação civil pública, o mundo lhe caiu em cima. O mundo comunista e seus lobbies fortíssimos, por supuesto. O próprio MST reagiu, ainda clandestino, mas mostrando a cara através dos seus militantes civis, deputados, senadores, padres armados da ideologia de Marx, e até promotores. Pois um dos principais desses defensores do indefensável MST veio à luz. É ele Mauro Renner, Procurador Geral da Justiça do Estado. Mauro Renner, ao que eu sei, jamais moveu uma palha civil pública ou uma ação penal contra o MST. Mas algo em sua consciência o fez reconhecer agora uma incômoda neutralidade politicamente correta, como ele mesmo diz no texto da Zero Hora, talvez em resposta ao que foi dito ao Valor Econômico pelo Procurador Gilberto Thums: “Há poucas pessoas no MP gaúcho dispostas a assumir publicamente o enfrentamento ao MST. É muito fácil ficar omisso. É confortável, cômodo e prático dizer que é um movimento social e que tudo isto, as depredações, os saques e a violência praticada por este movimento, é legal e permitido”.
Justo no momento em que a sociedade tem pela primeira vez a chance de se livrar dos crimes do MST, ou pelo menos vê-los como tais pela Justiça, vem agora um simpatizante da função social da propriedade – este monstrengo esquizofrênico plantado na Constituição Federal de 1988, a que todos, menos o MST, estão obrigados a obedecer – posicionar-se contra o Procurador Gilberto Thums. Este é corajoso e tenta, incômoda e corajosamente enquadrar como criminosos e guerrilheiros por atos específicos, e não genéricos, alguns testas-de-ferro do “movimento social”.
O ilustre Procurador Renner chega ao cúmulo de dizer que a sociedade precisa do MST para dialogar e exigir direitos. O palavrório tomado emprestado dos manuais comunistas modernos que falam em redes globalizadas, em direitos e diálogos é típico da ambigüidade que devem sofrer aqueles que estão no papel de defensores da sociedade e serem simpáticos à causa do MST ao mesmo tempo. Contradição? Esquizofrenia? Dialética marxista? Ou isto é conseqüência de anos e anos da pura mentira leninista revolucionária, usada como arma para enganar e confundir o inimigo? Prefiro acreditar que seja apenas uma seqüela mental produzida por leituras compulsivas da CF de 1988. Daí é fácil entender o contorcionismo mental que vê apenas tendências ou identifica pessoas quando o quadro é de clareza solar: estamos submetidos a um bando de criminosos impunes pelo Direito Alternativo, o filho aleijado da legalidade – também, conhecido por legitimidade. Não é isso que quer dizer o Procurador Renner, quando repete o mantra socialista da legítima posição de interlocutor e sujeito social do MST?
Há que se ter coragem para dizer ao povo – coragem que os políticos perderam há anos –, que o legítimo não pode substituir o legal, a não ser na Revolução ou no estágio proto-totalitário que o precede, exatamente o regime em que estamos.
Leiam o texto abaixo. Nele o procurador ainda pergunta pela antinomia flores ou enxadas. Diz desconhecer que estas últimas são e foram usadas como armas pelo MST! Então devemos concluir que foram as flores que um MST portava na Praça da Matriz que cortaram a garganta de um soldado da Brigada Militar há alguns anos, episódio que mereceu na época uma greve de fome do ex-governador Simon; em favor do agressor, por supuesto!
O palavrório termina com o discurso óbvio do resgate da dívida social, velha retórica comunista ou socialista, que busca imputar à sociedade atual um “crime” cometido há dois ou três séculos! Por esse raciocínio tortuoso a sociedade brasileira e gaúcha é criminosa – e deveria se apresentar presa ao Procurador para que o devido processo legal do Estado Democrático (?) de Direito pudesse ser iniciado.
É sintomático que Zero Hora publique no mesmo dia visões tão confusas sobre tema tão claro: houve crimes, continuados e hediondos, e ainda a sociedade foi mais uma vez levada a pensar que é ela que está doente. Não vou comentar o texto do soldado-deputado petista Adão Pretto, fardado de impunidade parlamentar em defesa do indefensável. Menos ainda vou me posicionar quanto ao texto confuso, mas sincero, do sociólogo entrevistado por Humberto Trezzi. Apenas aponto que este, depois de colaborar com a guerrilha comunista há anos, confessa existir leninismo da parte do MST. Somente o Procurador de Justiça tenta fugir dessa verdade. O deputado petista está na dele; vibra com a foice e o martelo na mão. O sociólogo vê leninismo no MST, mas não vê nele revolução. O Procurador vê flores, mas traz panos quentes para a guerrilha da lona preta e um balde de água gelada para derramar sobre nós.
Artigo
O Ministério Público é a favor da Constituição, por Mauro Henrique Renner*
Diante da polêmica levantada nos últimos dias, a partir das ações civis desencadeadas pelo Ministério Público contra determinados acampamentos do MST (Serraria e Jandir, por exemplo), como chefe da instituição e para que não pairem dúvidas, quero reafirmar que somos favoráveis à reforma agrária e à função social da propriedade rural, que fazem parte da política agrícola e fundiária nos exatos termos dos artigos 184 a 191 da CF. Somos, também, garantes dos movimentos sociais legítimos (de fins lícitos e sem caráter paramilitar), que têm o direito de se reunir e manifestar, modo pacífico e sem armas (CF, art. 5º, XVI e XVII). Lamentamos, ainda, que as ações do MP recaiam sobre misérias sociais e lacunas de ação política, sintomáticos que os proprietários sejam nominados e os réus sejam não apenas sem terra, mas, talvez pior, sem nome.
Talvez fosse mais cômodo afetar a neutralidade "politicamente correta" diante dos conflitos acirrados. Mas a sociedade brasileira, assim como precisa do MST para dialogar e exigir direitos na questão agrária, necessita de um MP com coragem para levar ao Poder Judiciário uma hipótese que é, no mínimo, diante das investigações realizadas, razoável, isto é, que alguns setores do MST perderam o foco e estão desbordando de seus direitos constitucionais. Neste cenário, o MP tem o dever de levar ao Estado-juiz os fatos, para que sejam decididos sob o império do Direito. É de lembrar que desde 1996 o Direito brasileiro exige intervenção do MP nas ações que envolvam litígios coletivos pela posse da terra rural.
Em face de ações em rede, típicas da globalização, era urgente vencer a tradicional atuação fragmentada (de um promotor de Justiça restrito ao limite territorial de sua comarca) e realizar uma análise global de uma série de atos com aparente coordenação. Essa foi a decisão fundamental do Conselho Superior do Ministério Público, que inclusive corrigiu a extensão indevida de sua primeira ata, e por unanimidade. Assim, ao contrário do afirmado até por editorial de ZH, o MP em nenhum momento postulou a extinção ou a ilegalidade do MST, respeitadas a independência funcional e a liberdade de consciência de seus membros (uma garantia também assegurada para os colegas que investigam o Detran e o Banrisul, diga-se de passagem).
Em suma, exercemos o dever de levar ao Judiciário, diante dos graves fatos apurados pelos órgãos de segurança, a possibilidade de que tendências ou pessoas dentro do MST estejam abusando de sua legítima posição de interlocutor e sujeito social. O movimento social, ao exercer o contraditório e a ampla defesa, apresentará suas razões. Os juízes decidirão e os cidadãos avaliarão e exercerão a crítica.
Penso que, assim, avançamos no Estado democrático, sem subterfúgios e dissimulações. Aliás, pelo respeito ao MST, num debate franco e leal, seria de refletir por que tais ações surgiram agora (não seriam sequer cogitadas há cinco anos) e obtiveram quatro decisões favoráveis de juízes diversos, o que parece afastar a conspiração ideológica. Enxadas ou flores? Quando as primeiras deixaram de ser vistas como ferramentas e prestaram-se, no discurso simbólico, à pecha de armas? E quando os poderes públicos e a sociedade vão resgatar a dívida agrária, uma agenda tão séculos 19 e 20? O MP não tem a pretensão de encontrar tais respostas.
MST invade sede do Incra em Cuiabá e interdita rodovias na Paraíba
Folha Online
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiu ontem a sede do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em Cáceres (221 km de Cuiabá). A ação terminou após dois sem-terra serem levados para a delegacia por suposta agressão a dois policiais militares. A manifestação pedia mais áreas para reforma agrária e investimentos de infra-estrutura nos assentamentos.
De acordo a PM do Mato Grosso, os sem-terra chegaram a arremessar uma câmera fotográfica nos policiais quando eram advertidos por desacato. Para o MST, os policiais interpretaram como desacato o fato de um dos manifestantes fotografar o evento.
O MST de Mato Grosso também bloqueou até o meio da tarde a BR-163 no trevo de Cláudia (604 km de Cuiabá) pelo segundo dia consecutivo.
De acordo com o Incra, representantes do órgão foram enviados para a região. Os manifestantes querem regularização ambiental de assentamentos, apoio do governo federal e terras para a reforma agrária.
Paraíba
Integrantes do MST bloquearam ontem, por cerca de sete horas, trechos de duas rodovias federais na Paraíba.
Os manifestantes pediam agilidade na desapropriação de terras no Estado. A BR-230, que atravessa a Paraíba, foi bloqueada em dois pontos.
Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal), cerca de cem pessoas interromperam o tráfego na altura do km 63, no município de Cruz do Espírito Santo, e cerca de 150 interditaram o quilômetro 385, em Condado.
Os bloqueios tiveram início por volta das 8h30 e terminaram às 15h20, com a presença de um representante do Incra. De acordo com o MST, cerca de 300 sem-terra também bloquearam ontem a BR-361, em Piancó (400 km de João Pessoa). A PRF não confirmou a interdição porque não conseguiu contato com policiais do local.
Segundo o MST, há fazendas no Estado que já foram consideradas improdutivas, mas ainda não foram desapropriadas. Há 2.400 famílias do movimento acampadas no Estado.
O ouvidor agrário do Incra no Estado, Cleofas Caju, que foi ao bloqueio na BR-230, informou que o órgão havia solicitado que o MST encaminhasse uma lista com as áreas prioritárias para a reforma agrária, o que não foi feito. Uma reunião entre representantes do MST e do Incra foi marcada para hoje.
Há pouco mais de uma hora um grupo de manifestantes do MST bloqueou a rodovia BR 174, na altura do quilômetro 76, entre os municípios de Cáceres e Pontes e Lacerda.
Segundo informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), uma equipe de policiais foi até o ponto do bloqueio.
Pela manhã os manifestantes liberaram o tráfego na BR 070, próximo a Cáceres e agora a tarde a BR 163, próximo a Sinop, que estavam bloqueadas.
A rodovia BR-174 liga a cidade de Cáceres a Pontes e Lacerda, Porto Esperidião, Vale de São Domingos, Pontes e Lacerda, Conquista D‘Oeste, Nova Lacerda, Comodoro e ao estado de Rondônia.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) bloqueou nesta segunda-feira o tráfego de veículos nas BRs 163 (no trevo de acesso a Cláudia) e 070 (perto de Cárceres), em Mato Grosso, afirma a PRF (Polícia Rodoviária Federal).
Aproximadamente 200 sem terra invadiram a pista da BR-163 desde o início da manhã de hoje, de acordo com o órgão. A PRF afirma que os manifestantes impediram somente a passagem de caminhões, mas caminhoneiros irritados com o bloqueio passaram a impedir o tráfego de ônibus e automóveis.
Na BR-070, o bloqueio terminou no final da tarde. Rossin Carneiro, da direção do MST na região de Cárceres, disse que o grupo exige terras para acampados e investimentos em infra-estrutura, educação e saúde em assentamentos.
Até às 22h, reportagem não conseguiu contato com os manifestantes da BR-163 por meio dos números indicados pela direção estadual do MST. O Incra de Mato Grosso disse que não recebeu a pauta de reivindicações do movimento. Até este horário o bloqueio da BR-163 continuava.
BELÉM E RIO - Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e do Movimento dos Trabalhadores na Mineração (MTM) comandaram no domingo a invasão e depredação da sede da Cooperativa de Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), em Curionópolis, no sudeste do Pará, e foram presos pela Polícia Militar. Nesta segunda, a PM, que está de prontidão no garimpo, transferiu para Belém cinco das 12 pessoas que continuam presas. No domingo, 40 invasores foram detidos.
Neste domingo, depois que a polícia dominou os invasores, os garimpeiros que estavam do lado de fora avançaram contra a tropa, que respondeu com bombas de efeito moral e balas de borracha.
A polícia constatou a relação entre MST e MTM, que já haviam se unido duas vezes este ano para fechar a Estrada de Ferro Carajás, impedindo a circulação de trens de carga e passageiros da mineradora Vale.
Entre os líderes transferidos nesta segunda estão Vagner da Silva Cruz, Fábio dos Santos Bezerra e Erivaldo Martins Carvalho, do MST, e Etevaldo da Cruz Arantes, presidente da Coopserra, do MTM. Os presos foram autuados em flagrante por invasão de domicílio, danos ao patrimônio e formação de quadrilha, entre outros crimes. A ação da PM evitou um confronto entre cerca de dois mil garimpeiros que disputam o controle da cooperativa. Líder de um dos grupos foi assassinado
Três grupos disputam o controle da Comigasp. Um era liderado pelo garimpeiro Josimar Brito, assassinado em 7 de maio, e se articula com o ex-prefeito de Curionópolis, Sebastião Curió, que administrou Serra Pelada nos anos 80, como agente do então Serviço Nacional de Informações (SNI). O segundo é liderado pelo garimpeiro conhecido como Valder, presidente da cooperativa, vinculado ao vereador Chamom Neto, de Curionópolis. O terceiro é chefiado por Eurival, ligado a Raimundo Benigno, do Sindicato de Garimpeiros de Serra Pelada e ao MST.
O grupo de Curió ganhou na Justiça o direito de ser reintegrado à direção da cooperativa. Com o assassinato de Josimar, o clima piorou. Ele foi morto em Marabá, com 13 tiros disparados por pistoleiros. O terceiro grupo, que reúne dirigentes de pequenas cooperativas, uniu-se ao MST, criando o Movimento dos Trabalhadores e Garimpeiros na Mineração (MTM).
A disputa pela Coomigasp se acirrou nos dois últimos anos, desde que a cooperativa fechou contrato com a Colossus, concessionária da Ayman Mineradora. A Colossus será responsável pela implantação de uma lavra mecanizada no extinto garimpo, cuja cava era explorada manualmente e hoje é um imenso lago. A cooperativa também cobra judicialmente uma suposta dívida, superior a R$ 50 milhões, que a Caixa Econômica teria com os garimpeiros.
Cadernos apreendidos pela Brigada Militar em São Gabriel mostram rotina dos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e como agem os militantes em confrontos
Humberto Trezzi Zero Hora
Ao alvorecer do último dia 8, cerca de 800 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acampados na fazenda São Paulo 2, em São Gabriel, foram surpreendidos pela chegada de igual número de PMs.
Munidos de ordem judicial, os policiais militares realizaram busca de objetos que poderiam ter sido levados pelos sem-terra durante a invasão promovida dias antes numa fazenda próxima, a Estância do Céu, pertencente a Alfredo Southall e cobiçada pelo MST desde 2003.
Durante a vistoria foram apreendidos facões, foices, facas - definidos pelo MST como objetos de trabalho - e escudos improvisados. O que mais chamou a atenção dos policiais (acabaram sendo entregues ao Ministério Público de São Gabriel para investigação), no entanto, foram quatro cadernos. Preenchidos a caneta, eles se dividem entre diários e atas que relatam o cotidiano dos acampados. São um misto de orientação dos líderes aos militantes e resumo das discussões internas.
A leitura dos cadernos, aos quais Zero Hora teve acesso, mostra que o MST utiliza termos militares para gerenciar os acampamentos, como Brigada de Organicidade e Pelotão de Apoio. No 1º Pelotão do Grupo Gestor, por exemplo, quatro pessoas centralizam a distribuição igualitária de víveres.
Os métodos militares estabelecem a organização de rondas de vigilância, distribuídas em turnos, como num quartel. As rondas incluem crianças, o que será motivo de investigação do Ministério Público. Na vistoria do acampamento da fazenda São Paulo 2, os PMs descobriram entre os sem-terra 28 crianças sem registros e 16 adolescentes sem responsáveis. Um trecho aponta que crianças maiores de 14 anos não estão livres de tirar guarda.
Foram encaminhados também à Polícia Civil e aos promotores públicos cadernos que dão noções de como os acampados podem resistir à desocupação das terras (incluindo menção a bombas e orientações sobre o que falar em momentos delicados) e de como podem driblar a fiscalização do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) quando se candidatam a ganhar terra.Confira os principais trechos dos cadernos:
Como arregimentar apoio
Após a invasão das fazendas de Alfredo Southall, a direção do acampamento estabeleceu algumas metas:
"Às 9h o oficial de Justiça vem trazer os papéis... A coordenação desce e a senha é A Southall é nossa.
O que dizer para a imprensa? Estamos num latifúndio que não tem apoiadores!
Que venha um representante do Incra para propor a reforma agrária, de preferência já com terras e local.
As Igrejas têm de cobrar do Ministério Público. Exigir apoiadores e mídia na hora do despejo".
Em outro trecho, orientação sobre como proceder nas cidades vizinhas e sobre a função de doações de alimentos nos bairros próximos dos acampamentos:
"Muito importante o trabalho nos bairros, como doar alimentos, panfletear, para cair rápido nos meios de comunicação".
Respostas padrão
Uma das atas estabelece uma orientação aos acampados sobre como responder ao cadastro do Incra, que vai determinar quem está apto ou não a receber cesta básica alimentar:
"É o cadastro da bóia, não precisa se intimidar...
Tem de dizer que não tem bem familiar, não tem renda porque não trabalha.
Quem não tem documento, dizer que a Brigada roubou.
Se tem passagem na Polícia? Não.
Se já era agricultor? Sim.
O que fazia há cinco anos atrás? Nada, por isso estou aqui...
Tempo de acampamento? Dizer que tem mais de um ano... E assim por diante".
Quem tira guarda
O uso de crianças para fazer guarda nos acampamentos não é rotina, mas acontece. Já o de mulheres é cotidiano, como mostram esses trechos do diário:
"Crianças pegando plantão, 10h às 12h, de 1h30min às 6h".
"... guarda: de menor, não tira guarda, por motivo se o Conselho (Tutelar) chega e vê um de menor na guarda, causa problema..."
"Luana, Paula, Denise e Juliana, quatro horas de guarda hoje".
Controle do insólito
O ímpeto de controle chega até mesmo ao que os acampados devem fazer com os seus animais:
"Foi acordado em assembléia que os cachorros têm que ser amarrados".
Pedras, trincheiras e bombas
Pouco antes do despejo de uma das invasões, novas orientações são anotadas num diário:
"Resistência do cenário: mais pedras, ferros nas trincheiras, alguns pontos estratégicos... cavalo apavora...
Zinco como escudo. Bombas... tem um pessoal que é preparado. Manter a linha.
Retorno do Pelotão 13: fazer trincheira lá atrás. Se protejam atrás, porque o pelotão que tome cuidado, atiram foguete..."
Desavenças e punições
Casos de desavenças ou crimes são tratados por uma comissão disciplinar, que determina o destino daquele que não se adapta:
"... tá roubando galinha. Quem rouba é expulso".
"...os rapazes foram expulsos porque roubaram da Vozinha 15 reais, não gostavam de reunião e não faziam tarefa...".
"...proposta da direção de transferir P. para outro acampamento, porque corre risco de vida. Vai ser transferido, queira ou não".
Divisão de classes
As anotações de uma folha transmitem aos militantes uma divisão social bem clara entre os grandes proprietários de terra e os sem-terra e chegam a traduzir uma desesperança quanto ao rumo da reforma agrária e convoca para a luta:
"Ricos... concentram a terra comprada com o dinheiro do povo. Quem sustenta é a Farsul e o Poder Judiciário.
Pobres... lutamos para que a terra seja partilhada. Para lutar, precisamos nos organizar.
Levando em conta tudo que conversamos, vamos esperar sentados, vamos acreditar nas palavras do Incra, das mil famílias, ou vamos lutar, buscar conquistas? Há disposição".
Lucro com bebidas
Trecho faz uma avaliação do resultado de uma das festas do acampamento:
"Avaliação de domingo, teve bastante lucro com a venda de bebidas. Sobre bagunças, sempre envolvido o Peixe".
Uma invasão
Trecho de um caderno faz uma avaliação de uma invasão de propriedade da família Southall no mês de abril, quando o MST promoveu uma série de ações pelo Brasil:
"Nível está bom. Repercussão da ocupação está boa em sete Estados. Em Pernambuco, 23 ocupações. Oposição da PM. Ação rápida. Muita arma no acampamento. Imprensa".
Escolha de alvos
Líderes, ao pregar o que fazer para organizar o movimento em um momento delicado, sugerem a invasão da sede do Incra:
"O que precisamos fazer?
Fazer uma ocupação no Incra para fazer pressão, para que saia terra. Ou ocupar uma área símbolo. Ficar e não arredar pé.
Quando? Se for possível, amanhã, já".
Medo de flagrante
No dia 29 de abril, a recomendação para evitar prisões na hora em que a BM fosse revistar o acampamento em busca de objetos saqueados:
"Se tiver algo que trouxe da Southall, favor consumir. Senão vai preso em flagrante".
Os manifestantes retiraram 1.200 grampos que fixam os trilhos, cortaram cabos de fibra ótica, atearam fogo em pneus sobre os trilhos, danificaram 300 dormentes e comprometeram a sustentação da linha ao usar um macaco hidráulico para levantar os trilhos, o que foi constatado na perícia. Os danos causados à ferrovia poderiam inclusive provocar o descarrilamento do trem da mineradora Vale, que transporta diariamente 1.300 passageiros de São Luís, no Maranhão, até Parauapebas, no Pará.
A Polícia Federal e policiais do setor de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Pará trabalham agora na identificação dos manifestantes responsáveis pelos atos classificados como sabotagem pela direção da Vale.
Desde a quarta-feira à noite, quando a ferrovia de Carajás foi finalmente desbloqueada, a PF e a PM do Pará mantêm um efetivo de cem agentes em Parauapebas para coibir de imediato qualquer tentativa de nova interdição da estrada de ferro, nas proximidades do acampamento Palmares II, do MST.
A virulência do ato conjunto do MST e MTM contra a ferrovia de Carajás forçou o governo do Pará a anunciar o rompimento de negociações com os manifestantes garimpeiros, que exigem o cumprimento de promessas feitas pelo governo federal, como o pagamento de resíduos de ouro do garimpo de Serra Pelada não pagos até hoje pela Caixa Econômica Federal.
Integrantes do MST ocupam sede do Incra em Petrolina
Roseanne Albuquerque Da Rádio Jornal Petrolina
Cerca de 200 pessoas ligadas ao Movimento dos Sem Terra (MST) estão acampadas desde a manhã desta quinta (15) a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Petrolina. Na pauta de reivindicações do grupo, questões como a vistoria de áreas que possam ser liberadas para a reforma agrária.
"Também queremos um posicionamento sobre o problema da alimentação, ou seja, as famílias não estão recebendo - há dois meses - as cestas básicas que são distribuídas pelo órgão. Gostaríamos ainda de ver junto aos representantes do Incra de que maneira eles podem nos ajudar com relação ao problema da distribuição de água para as famílias que estão no Pontal Sul. Até hoje a questão não foi resolvida pela Codevasf", explica o coordenador regional do MST, Florisvaldo Araújo.
Araújo garante que os integrantes do MST só sairão do Incra com o comprometimento - através de documento - de que ações serão tomadas para viabilizar as reivindicações. "Tem que ter um compromisso assinado, para sabermos, por exemplo, em que dia as cestas serão distribuídas e quando as vistorias serão feitas".
Em nota, a assessoria de imprensa do Incra em Petrolina, informou que o superintendente Emerson Jocaster deve agilizar as negociações para a desocupação do prédio nesta sexta (16), quando chega de viagem. Alguns pontos colocados pelos integrantes do MST já foram discutidos e avaliados pelo superintendente adjunto do órgão, John Ericsson Cartaxo.
Esta é a terceira vez que o MST ocupa a sede do Incra em Petrolina este ano. Há cerca de um mês, o grupo interditou ainda um trecho da BR-428 (entre Petrolina e Lagoa Grande), para reivindicar junto à Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba), a distribuição de água para as famílias assentadas no Projeto Pontal Sul.
Área produtora de trigo em São Miguel Arcanjo foi invadida pelo MST
Carla de Campos Agência BOM DIA
O arrendatário da fazenda Monte Belo, José Ricardo Teixeira, aguarda para os próximos dias a reintegração de posse da área invadida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra), em São Miguel Arcanjo. Desde domingo, um grupo com cerca de 70 pessoas ocupa a fazenda, produtora de trigo.
De acordo com o arrendatário, não houve confronto com os sem-terra e ontem de manhã a situação era tranqüila. “Estou conversando bastante com eles que sabem que esta área é totalmente produtiva”, diz. “Até já fiz algumas doações de leite, pão e feijão, porque a situação de alimentação é crítica.”
O pedido de reintegração de posse foi protocolado anteontem pelo proprietário da área, Sérgio Antunes, que mora em Minas Gerais.
A fazenda Monte Belo possui 80 alqueires de trigo plantados. Há ainda uma pequena criação de gado. O trigo começa a ser colhido no fim do mês de agosto. No ano passado, a produção chegou a 10 toneladas por alqueire e a expectativa é de que o volume se mantenha na safra deste ano. A área está arrendada até 2011.
Segundo Teixeira, os sem-terra não danificaram a produção. “Estão respeitando. Eles sabem que não vão permanecer aqui e que ficar é perda de tempo”, afirma. Mesmo com o clima de tranqüilidade, a Polícia Militar mantém rondas constantes no local.
Os sem-terra alegam que a área pertence ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) por meio de uma execução de dívida. Segundo o coordenador regional do MST, Joaquim da Silva, a fazenda valeria R$ 4,5 milhões, quase metade da dívida com o banco.
Se o pedido de reintegração de posse for concedido, Joaquim disse que ainda não sabe para onde irão as famílias. Na região, segundo o coordenador, há duas áreas improdutivas, em Itapetininga e Campina do Monte Alegre.
Diretores da Companhia Vale do Rio Doce criticaram hoje a falta de ação policial do governo do Pará capaz de inibir novas invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em ferrovias da empresa. Segundo o diretor de Relações Institucionais e Sustentabilidade, Walter Cover, em todas as 11 ocupações ocorridas nos últimos 13 meses a polícia chegou apenas depois que a Justiça já havia expedido mandado de reintegração de posse e os invasores já haviam desocupado a ferrovia.
Segundo ele, a falta de ação da polícia paraense "é uma questão de decisão política de governos que preferem optar pelo caminho da negociação". A justificativa do MST para essa última invasão à Estrada de Ferro Carajás é a de que o governo do Estado, dirigido pela petista Ana Júlia Carepa, deixou de enviar um representante para uma reunião que já estava marcada.
"Se o governo decidiu negociar, que não deixe brechas detonadoras de ocupações. Os governos têm que ser mais ágeis", disse Cover, acrescentando que há uma percepção de que o movimento está se tornando cada vez mais organizado, sem improvisações. "É claramente uma estratégia. Quando a polícia chega, eles já não estão mais na ferrovia", afirmou, o que dificulta a prisão em flagrante dos sem-terra.
O diretor de Logística da Vale, Zenaldo Oliveira, disse que qualquer paralisação das operações provocada por novas invasões pode interromper o escoamento da produção de minério de ferro. Segundo ele, com o aumento da demanda internacional, a empresa não está conseguindo formar estoque da matéria-prima nos portos. A Vale ainda não calculou o prejuízo causado pela invasão, mas estima em US$ 22 milhões as perdas provocadas por um dia de paralisação no escoamento de 285 mil toneladas de minério.
Segundo a empresa, os invasores provocaram também danos materiais, retirando 1.200 grampos que fixam os trilhos ao solo, num trecho de mais de 200 metros de extensão. O MST também, de acordo com a Vale, cortou os cabos de fibra ótica que passam pela ferrovia, interrompendo a comunicação via celular de Carajás, ateou fogo em pneus sobre os trilhos, danificando mais de 300 dormentes, e usou macaco hidráulico para levantar os trilhos, comprometendo a sustentação da linha.
Cerca de 70 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) invadiram hoje a Fazenda Monte Belo, onde funcionava um antigo projeto de produção intensiva de leite em São Miguel Arcanjo, na região de Sorocaba. O projeto, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), estava desativado. Os sem-terra chegaram num comboio ao amanhecer, destravaram a porteira e se instalaram na área sem encontrar resistência. De acordo com o coordenador regional Joaquim da Silva, apenas a mulher de um caseiro estava no local. Por volta das 8 horas, chegou um dos arrendatários que exploram a área de 260 hectares para produção de trigo. Parte das terras está ocupada com a lavoura. Ele apresentou documentos de arrendamento e entrou em contato com o proprietário, Sérgio Antunes, que reside em Minas Gerais.
Policiais militares de São Miguel Arcanjo também foram até o local e se limitaram a registrar a invasão. De acordo com o comando, o proprietário vai entrar na justiça com pedido de reintegração de posse. De acordo com Silva, a posse do imóvel já foi dada ao BNDES em ação de execução pelas dívidas, mas o processo ainda não foi concluído. "Agora são terras públicas e o movimento quer assentar as famílias", disse. Entre os sem-terra, muitos tinham sido recrutados recentemente e estavam participando de uma invasão pela primeira vez.
Foi a primeira ação do MST no município, que se caracteriza pela alta produção de frutas e legumes em pequenas propriedades rurais. O projeto do leite foi iniciado na década de 90 pela empresa Maior Indústria de Comércio de Leite Ltda. Como o nome diz, o plano previa a instalação de uma grande usina para fomentar a produção de leite entre os pequenos produtores. O projeto do leite fracassou e a área foi arrendada para pequenos produtores.
Mais de mil integrantes do MST fecham na manhã desta quinta-feira onze rodovias no Rio Grande do Sul em protesto à ação da Brigada Militar contra os integrantes do acampamento de São Gabriel, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Os protestos tiveram inicio às 8h.
Desde às 6h da manhã, a Brigada Militar cercou uma área de 4km do acampamento do MST. Os policiais querem vistoriar o acampamento, para recuperar o que o MST tirou da Fazenda Southall, quando foi ocupada em 14 de abril. Os criminosos do MST não receberam nenhum mandado judicial e afirmam que irão resistir à ação dos policiais.
MG: prédio do Incra é depredado por integrantes do MST
CBN Minas
BELO HORIZONTE - Funcionários do Incra em Belo Horizonte denunciam depredação de salas no edifício-sede durante a ocupação feita pelo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nesta semana, entre segunda e quarta-feira, cerca de 300 pessoas ligadas ao MST ocuparam o prédio. Servidores do Incra afirmam que nesta sexta, quando voltaram ao trabalho, encontraram mesas, cadeiras e paredes danificadas, documentos rasgados e paredes pichadas.
Segundo os servidores, computadores com dados sobre a reforma agrária em Minas foram roubados. Até uniformes dos funcionários da limpeza sumiram.
Servidores do Incra afirmam que essa depredação vai atrasar o andamento de todos os processos existentes em Minas, principalmente os relativos a assentamentos. O MST afirma não ter conhecimento dos roubos e depredação.
MST ocupa entrada de usina da Cosan por sete horas
O Globo
SÃO PAULO - Um grupo de aproximadamente 300 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acamparam nesta quarta-feira em frente a usina Santa Helena, no município de Rio das Pedras, interior de São Paulo, para protestar contra o que chamaram de "trabalho escravo" que as indústrias de açúcar e álcool impõem a seus trabalhadores usados no corte de cana-de-açúcar. O acampamento do MST na porta da usina durou das 6h às 14h30m e agora não há mais ninguém no local. A Santa Helena pertence ao grupo Cosan, o maior grupo privado de açúcar e álcool do mundo e que acaba de comprar a Esso no Brasil.
Em nota oficial, a Cosan nega que haja trabalho escravo na usina e diz que todos os funcionários da empresa têm contratos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Leia abaixo a nota da Cosan:
"A Usina Santa Helena já comunicou as autoridades sobre a manifestação do MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ocorrida hoje, 30/04. A unidade processa atualmente 11 mil toneladas de cana-de-açúcar por dia e emprega cerca de 2 mil funcionários. Todos os funcionários da Usina Santa Helena têm contratos regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e contam também com amplo plano de benefícios oferecidos pela empresa. Todos os trabalhadores migrantes são contratados regularmente de acordo com a legislação vigente e acomodados em alojamentos da própria usina, considerados referência positiva pelo Ministério do Trabalho e Ministério Público do Trabalho".
Desde o início do mês, o MST vem fazendo uma série de ocupações pelo país como parte do Abril Vermelho, que lembra o massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 sem-terra morreram em confronto com a polícia militar do Pará. Na sexta-feira passada, integrantes do MST ocuparam duas ferrovias no Pará .
Quando o principal líder do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, por ocasião do último 'Abril Vermelho' e em 'comemoração' do 'massacre' de Eldorado dos Carajás, disse que o governo Lula precisava 'criar vergonha na cara', muitos viram nessa grosseira afirmação apenas a manifestação de um temperamento ingrato, pois 'nunca antes neste país' um chefe de Estado e governo recebera um movimento que não existe legalmente e age ao arrepio da lei no gabinete presidencial, e muito menos colocara na cabeça presidencial seu simbólico boné vermelho. Além disso, jamais esse movimento e seus assemelhados receberam, como no atual governo, polpudos subsídios oficiais, repassados por meio de entidades-laranja. Por que, então, tanta ingratidão?
Matéria assinada por Roldão Arruda no Estado de domingo (Bolsa-Família enfraquece o MST) esclarece, em boa medida, as razões da 'bronca' emessetista contra o governo federal. Por causa desse programa assistencial, que distribui dinheiro a 11 milhões de famílias pelo território nacional, nas periferias das cidades e nas zonas rurais mais miseráveis é cada vez menor o número de pessoas que se deixam arregimentar pelo MST para realizar as suas operações habituais de invasões e ocupações de fazendas, montagens de acampamentos e ações correlatas. Como bem se sabe, de há muito a massa de manobra dos sem-terra já não tinha nada que ver com a terra, propriamente dita, ou com a produção rural. Vinham, especialmente, das periferias urbanas, de pessoas sem nenhuma experiência de trabalho no campo - uma das razões, aliás, de tantos assentamentos fracassados e abandonados.
Eis por que a reivindicação fundiária, que esteve na origem da fundação desses movimentos ditos sociais e ainda é mencionada em seus discursos, deixou de ser a principal estratégia dessas organizações, sendo substituída por ações capazes de causar mais impacto, tais como as invasões de prédios públicos, os bloqueios de rodovias e ferrovias - como a da Vale -, assim como participações em atos predatórios, semelhantes aos realizados pela Via Campesina contra laboratórios de aperfeiçoamento genético de sementes e demais bases de apoio científico-tecnológico ao agronegócio.
Mas o que levaria pessoas contempladas com mesadas do Bolsa-Família a deixar-se mobilizar para arriscadas operações de esbulho da propriedade alheia?
'Não há como negar que nossa capacidade de mobilização tem sido prejudicada por esse programa', diz José Batista de Oliveira, do grupo de coordenadores nacionais do MST, referindo-se ao Bolsa-Família. E continua com sua explicação teórica: 'É uma ação paliativa e humanitária. Mas não altera estruturalmente as perspectivas de inserção econômica e social e gera acomodamento.'
As pesquisas divulgadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que existe uma relação direta entre a redução do número de novos acampamentos do MST e o crescimento do principal programa assistencial do governo. Em 2002, último ano do governo FHC, foram erguidos 64 acampamentos no País. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, o número saltou para 285. No ano seguinte, porém, caiu quase pela metade e no ano passado não ultrapassou 48.
Reportagem de José Maria Tomazela, também publicada domingo, dá conta da existência de 'acampamentos fantasmas' no Pontal do Paranapanema, onde há barracos vazios e em ruínas, que só recebem 'moradores' nos dias em que são distribuídas as cestas básicas. O único sinal da presença humana no Acampamento Sul Mineira, em Presidente Epitácio, é um canteiro recém-plantado com batata-doce. Os 18 barracos, na margem direita da SPV-035, que liga a cidade a Teodoro Sampaio, estão fechados, alguns com cadeado na porta, outros com marcas evidentes de abandono. Na última quinta-feira, havia água em duas torneiras abastecidas por tambores de plásticos e 'algumas galinhas que ciscavam famintas'.
Eis aí a descrição de um quadro desolador. E assim melhor se entende porque o sr. Stédile se mostra, a cada dia, com pior humor: o principal programa social de Lula - quem diria! - está privando o MST de sua massa de manobra.
MST expulsa até ex-militantes de fazenda da Cutrale
Invasores ocuparam a casa-sede, os escritórios e todas as instalações existentes no local
José Maria Tomazela , de O Estado de S.Paulo
IARAS - Integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) expulsaram na segunda-feira as seis famílias de trabalhadores rurais que moravam na Fazenda Turvinho, da empresa Cutrale, em Iaras, no sudoeste paulista. Entre os expulsos, estão assentados e filhos de antigos integrantes do próprio MST. A propriedade de 800 hectares foi invadida no último dia 18 por cerca de 600 militantes, como parte da jornada nacional de luta do movimento - o chamado "abril vermelho". A fazenda faz parte de uma área maior, de 2,7 mil hectares, cultivados com laranja. Os invasores ocuparam a casa-sede, os escritórios e todas as instalações existentes no local. Os empregados da Cutrale que ocupavam as casas da fazenda receberam um ultimato para deixar a propriedade.
"Eles fizeram uma reunião lá e decidiram que a gente tinha que sair", contou o vigilante José Mariano de Oliveira, de 27 anos. Um dos líderes transmitiu o recado ontem cedo. A esposa e a filha de três anos do vigilante já tinham ido para a casa da sogra, no Acampamento Zumbi dos Palmares, que fica na mesma região. A mulher e seu marido são assentados e o casal já foi militante do MST, mas isso não impediu a expulsão da filha e do genro com a netinha. Segundo Mariano, outras duas famílias moram no assentamento. "Muitos assentados trabalham na fazenda." Ele disse que não tinha como resistir à ordem para ir embora. "Eles eram muitos e meu chefe tinha nos orientado para evitar qualquer problema." Os sem-terra não permitiram a retirada de 35 tratores, 4 caminhões-pipas, dezenas de máquinas e implementos da empresa que estão em seu poder. Mariano saiu com uma "mão na frente e outra atrás", como disse. Móveis e objetos pessoais ficaram na casa.
O assentado Adriano Feliciano, de 28 anos, também trabalhava na empresa como tratorista. Ele voltou para o seu lote, no Zumbi dos Palmares, e agora não sabe como vai ser o futuro da família. Sua mulher, Olga Lourenço dos Santos, de 32 anos, também trabalhava nos laranjais. "A empresa é muito boa, dá ônibus, cesta básica e manda presentes para as crianças." Adriano voltou a trabalhar no lote na esperança de que a situação seja resolvida logo. Ele recebe cerca de R$ 600 por mês, dinheiro que mantém a casa e sustenta as crianças - as filhas Silvana, 15, Micaela, 10 e Michele, 7 anos. Com o salário, o tratorista comprou uma motocicleta em prestações. "Ainda falta pagar 20 parcelas de R$ 330." Segundo o trabalhador, em nenhum outro lugar da região ele vai conseguir o mesmo salário. "Emprego por aqui está difícil." O lote no assentamento pertence à sua mãe, que já foi acampada e militante do MST, assim como seu sogro. "Nós somos agregados", disse, referindo-se à mulher e os filhos. A produção do lote não é suficiente para sustentar toda a família. Por essa razão, muitos assentados foram trabalhar na Cutrale.
"O ônibus passa no acampamento recolhendo o pessoal." Ou melhor, passava: desde a invasão, os trabalhadores estão em casa, com medo de perder o emprego. "Está todo mundo na expectativa do que vai acontecer." O pior, segundo ele, é que chegou a época da colheita e as frutas estão amadurecendo nos pés e caindo. Se depender do MST, a Cutrale não volta a colher laranjas na fazenda. De acordo com a líder Claudete Pereira de Souza, da direção estadual do movimento, os sem-terra pretendem lutar "até o fim" pela posse da área. "As terras aqui pertencem à União e a empresa usa indevidamente", disse. Ela contou que cerca de 300 militantes permanecem no local e estão usando a estrutura da fazenda para acomodar principalmente mulheres e crianças. "Montaram uma bela estrutura em terras públicas." Claudete disse que a saída dos funcionários foi decidida pelo grupo.
"Não tem sentido eles ficarem aqui." De acordo com a líder, os acampados pretendem usar os tratores para arar a terra e plantar alimentos. "Não vamos cortar nenhum pé de laranja, pois o plantio será feito entre as linhas do pomar." A reintegração de posse da área já foi dada em favor da Cutrale no dia seguinte ao da invasão pela juíza Luciane Cristina Rodrigues Pereira, da comarca de Cerqueira César, mas o mandado ainda não foi cumprido. Os oficiais de justiça não conseguiram intimar pessoalmente os líderes do movimento e reportaram a situação à juíza, que reiterou a ordem de despejo. A ação operação para a retirada dos invasores está sendo preparada pela Polícia Militar de Bauru. A líder disse que os sem-terra não querem o confronto. "Estamos tentando reverter a liminar na instância superior."
Jamais existiu no País alguma outra entidade - no caso, agrupamento ou bando, já que não tem existência legal - capaz de demonstrar tamanho desrespeito pelas instituições como o Movimento dos Sem-Terra (MST). Esse bando não pode ser comparado a organizações guerrilheiras, pois estas, onde existem, são combatidas, com maior ou menor grau de sucesso, pelas forças policiais. O MST, embora use muitos dos métodos violentos daquelas facções insurretas, aqui recebe subsídios oficiais (por meio de entidades laranjas “legais”) e é tratado com a maior deferência, a ponto de ser recebido pelo chefe de Estado e governo, que até já vestiu seu simbólico boné. Apesar desse tratamento, ao desrespeito junta-se a ingratidão quando o líder emessetista maior, João Pedro Stédile, ao explicar as razões do Abril Vermelho, afirma que “está na hora de o governo federal criar vergonha na cara”.
Como há muito tempo têm se repetido o “Abril” e outros meses “Vermelhos”, em que o MST e movimentos assemelhados realizam invasões, ocupações, bloqueios de estradas, depredações e numerosos atos de violência em vários Estados do Brasil, sempre usando o pretexto de protestar contra a lentidão da reforma agrária ou ressaltar datas que consideram simbólicas, em nada surpreendeu a maneira como “comemoraram” os 12 anos do chamado “massacre de Eldorado dos Carajás” - quando 19 sem-terra foram mortos em confronto com a polícia do Pará, em 17 de abril de 1996. A mobilização resultou em ações variadas, realizadas em 17 Estados e no Distrito Federal.
Em Mato Grosso, o bloqueio da BR-070 (que liga o Estado à Bolívia); no Distrito Federal, a invasão do Incra; em Minas, a ocupação da Fazenda Correntes; no Paraná, a invasão de 11 praças de pedágio; no Rio Grande do Sul, o bloqueio de 4 rodovias; em Santa Catarina, a invasão do Incra em Chapecó; em São Paulo, a ocupação da Secretaria Municipal de Educação de Ribeirão Preto, a ocupação de agência do Banco do Brasil em Sorocaba e a invasão da Fazenda Saltinho em Americana; no Ceará, a ocupação de 4 fazendas; no Piauí, a invasão da sede da Caixa em Teresina; na Paraíba, a ocupação de 6 fazendas; em Sergipe, a ocupação da Usina Hidrelétrica de Xingó, em Canindé do São Francisco - estas foram algumas das façanhas dos sem-terra, só no dia 17, sem que fossem incomodados pela polícia.
Foi no Pará e contra a mineradora Vale, no entanto, que se chegou ao ponto culminante da “comemoração”: a invasão da Estrada de Ferro Carajás (EFC), em Parauapebas, com paralisação de trem, feita por garimpeiros e apoiada por militantes do MST. A mineradora já havia obtido da Justiça, em março, uma decisão proibindo quaisquer atos contra ela, praticados por movimentos sociais, que significassem danos a seu patrimônio ou paralisação de seu funcionamento. Na liminar concedida a pedido da companhia, a juíza Patrícia Whately, da 41ª Vara Cível do Rio de Janeiro, reconhecera o direito do movimento de promover ações, desde que não fossem “atos violentos” ou interrompessem a atividade da empresa.
Na ocasião, Stédile dissera que tal decisão judicial era “uma idiotice” e prometera, solenemente, desrespeitá-la.
Stédile e o MST cumpriram a promessa. Tratou-se de uma desobediência - e melhor seria dizer deboche - à Justiça, anunciada com grande antecedência. Agora se reconheça: se há alguém no País que tenha se especializado em debochar da Justiça, este se chama João Pedro Stédile. Processado duas vezes, tem fugido de todas as citações e fica tudo por isso mesmo. Deixou de comparecer a todas as audiências e nada aconteceu. Ou melhor, aconteceu: ficou livre do primeiro processo - por incitação à violência -, que foi extinto. Quanto ao segundo processo, relativo a sua participação na organização e no próprio ato de depredação do viveiro da Aracruz pelas mulheres da Via Campesina, já escapou de duas audiências marcadas e continua por aí, dando palestras em aulas magnas de universidades e em outras exibições públicas, sem que ninguém lhe incomode.
O MST e seu líder maior não debocham só da Justiça. Com o generalizado desrespeito às instituições e às leis, esse bando humilha a Nação. E faz isso sob os olhos cúmplices e complacentes das autoridades federais, a começar do presidente da República.
MST cumpre ameaça e interdita Estrada de Ferro Carajás (EFC)
Jornal Nacional Roberto Paiva e Raimundo José 17/4/2008
Veja a reportagem, veiculada no Jornal Nacional, da TV Globo, sobre a invasão da EFC por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A matéria mostra também a importância da Mina de Carajás para a cidade de Parauapebas, no sudeste do Pará (17/04/08 - 4'00)
MST promove mais um dia de crimes e terror no Pará
Foto: Folha de S. Paulo
Estrada de Ferro Carajás e sede da Vale em Belém são invadidas
Da Vale
1) Apesar de todos os esforços implementados pela Vale, o MST promoveu hoje mais invasões a instalações da empresa no estado. Pela manhã, cerca de 500 invasores paralisaram a Estrada de Ferro Carajás (EFC). À tarde, os invasores desocuparam a ferrovia, deixando para trás um rastro de prejuízos e afetando a vida de milhares de pessoas que dependem da EFC para se locomover ou para receber insumos importantes, como combustíveis. Os manifestantes continuam acampados nas imediações da ferrovia.
2) De tarde, um grupo de cem integrantes do MST promoveu mais um ato de vandalismo, ao invadir a sede da Vale em Belém, no bairro de São Braz, aterrorizando empregados da empresa, que não puderam deixar o local. Ontem, dia 16, a Vale já tinha avisado à Polícia Militar do Pará da possibilidade da invasão, e, mesmo assim, as autoridades da área de segurança não tomaram as medidas necessárias para evitar mais este crime.
3) A invasão da EFC aconteceu por volta das 7h25 desta manhã. Ao avistar os invasores, o maquinista acionou os freios de emergência e parou a composição. As autoridades da área de segurança pública do estado informaram que não houve registro de nenhum ferido durante a invasão. O trem já voltou a circular normalmente.
4) Esta manhã a Vale pediu a reintegração de posse da Estrada de Ferro Carajás (EFC). À tarde, a Justiça Federal de Marabá atendeu o pedido da empresa. A medida também determina:
- seja oficiada a governadora do Estado do Pará, para que envie tropas da Polícia Militar para cumprimento da decisão de reintegração; - oficiar o ministro da Justiça para que encaminhe um contingente de policiais federais para cumprir a decisão de reintegração imediatamente; - multa diária de R$ 10 mil por invasor; - abertura de inquérito policial para apuração de crime de desobediência à ordem judicial; - a apreensão de equipamentos utilizados pelos invasores para a ocupação da ferrovia;
5) Cerca de dez mil trabalhadores que prestam serviços para a Vale tiveram que interromper suas atividades por causa da invasão.
6) Cabe destacar que a decisão da Vale de ingressar na Justiça com o pedido de Obrigação de Fazer aconteceu em 7 de abril. O Governo do Estado enviou tropas para o local no dia 10. Na ação, a empresa pede que os Governos:
"planejem, dimensionem, provejam e estruturem o contingente policial que se faça necessário e adequado de modo a impedir, efetivamente, os delitos contra a autora praticados por terceiros integrantes dos ditos 'movimentos sociais' (MST, MTM, MAB, Via Campesina, etc), notadamente em relação às instalações e atividades da autora nas cidades de Parauapebas e Marabá, promovendo operações policiais de aspecto global nas áreas de suas respectivas competências".
7) Os invasores só liberaram a ferrovia depois da chegada de tropas das polícias Federal, Militar e Civil do Estado do Pará.
8) Há muito tempo, a Vale vem alertando as autoridades que este clima de desrespeito ao Estado de Direito cria um ambiente negativo para o crescimento dos investimentos em nosso país, em especial para o Pará, região que apresenta um dos maiores potenciais de crescimento e geração de renda e emprego.
9) O Conselho de Administração da Vale aprovou um plano de investimentos que, entre 2008 e 2012, deve levar para a região cerca de US$ 20 bilhões e gerar mais de 35 mil novos empregos.
10) Estas novas invasões, que infelizmente já se tornaram práticas comuns no Estado do Pará, não são boas para o Brasil.
11) A Vale reafirma que não vai se calar diante de ameaças de grupos que atuam à margem da lei.
MST invade 11 praças de pedágio no Paraná e quatro ainda estão ocupadas
Ana Paula de Carvalho - O Globo
CURITIBA - Cerca de 1.500 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) invadiram na manhã desta quinta-feira 11 das 27 praças de pedágio em rodovias do Paraná, prometendo permanecer até o fim da noite. De acordo com a Polícia Rodoviária Estadual, não houve registro de tumulto, mas os sem-terra liberaram as cancelas e os motoristas puderam passar sem pagar o pedágio. No início da noite, apenas quatro dessas praças de pedágio invadidas ainda estavam ocupadas por militantes do MST.
A invasão começou por volta das 7h30 em Campo Mourão, no Norte do estado, seguida da ocupação da praça de pedágio em Mandaguari, às 8h. A terceira praça foi invadida, por volta das 8h15, por cerca de 80 integrantes do MST, que chegaram em dois ônibus. Portando bandeiras, alguns sem-terra chegaram a oferecer erva-mate produzida no acampamento para os motoristas, vendendo a R$ 5,00.
Cinco praças invadidas ficam na BR-277, localizadas em Curitiba, São Luiz do Purunã, Prudentópolis, São Miguel do Iguaçu e Laranjeiras, duas na BR-376 nas cidades de Mandaguari e Ortigueira e outra na BR-369 em Campo Mourão. As outras três praças invadidas pelo movimento foram desocupadas no começo da tarde.
O coordenador do MST no Paraná, Arilson de Assis, justifica que as invasões dos pedágios dá mais mídia:
- A gente está se mobilizando em pontos estratégicos, onde a maioria do pessoal que vem do Estado passa, porque dá mais visibilidade à mobilização - disse.
A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias no Paraná já entrou na Justiça pedindo reintegração de posse. Os funcionários das praças de pedágio foram orientados a deixar as cabines para evitar confrontos.
Além de integrar o chamado "Abril Vermelho", o MST também protestou contra a existência de milícias armadas no Paraná. De acordo com o MST, os integrantes do movimento Valmir Mota de Oliveira e Eli Dallemole, assassinados este ano, foram mortos em ação de milícias armadas que seriam contratadas por fazendeiros da região. Para cobrar o combate às supostas milícias, os sem-terra promoveram uma caminhada em Ortigueira, na região central do Estado, que terminou em frente ao fórum da cidade, onde deixaram um caixão em sinal de protesto.
Considerado uma das testemunhas contra as milícias que estariam atuando no Paraná, Dallemole foi assassinado no fim de março dentro da sua casa. Dois homens encapuzados executaram o sem-terra com quatro tiros à queima-roupa na frente da mulher e dos três filhos, de 19, 16 e 11 anos.
1) As lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), desafiando a Justiça, cumpriram suas ameaças e invadiram novamente a Estrada de Ferro Carajás (EFC). A nova invasão, a nona em 13 meses, aconteceu às 7h25 de hoje, 17 de abril, e foi feita por cerca de 500 pessoas, em sua maioria integrantes do MST, num trecho do município de Parauapebas (PA).
2) Os invasores, liderados pelo MST, fizeram de novo um de nossos maquinistas refém. A vítima foi Raimundo de Souza Nepomuceno, de 43 anos, que teve sua vida ameaçada por manifestantes que portavam porretes e facões. Os invasores também ameaçaram incendiar a locomotiva caso o maquinista não abrisse as portas da composição. O empregado cedeu, abriu as portas e foi retirado à força da locomotiva e, depois, libertado.
3) Desta vez, os líderes do MST foram ainda mais longe. Numa demonstração de que não medem esforços para pôr em prática seus planos criminosos, seqüestraram um ônibus de uma empresa prestadora de serviços para a Vale. O veículo foi interceptado por manifestantes que ameaçaram e forçaram o desembarque de 35 passageiros. O ônibus permaneceu, ilegalmente, por algum tempo em poder dos integrantes do MST.
4) A Vale vem a público manifestar sua indignação pela insuficiência de ação das autoridades competentes que foram, há muito tempo e amplamente, avisadas que esta invasão iria acontecer. É inadmissível que os governantes não tenham tomado a tempo as providências necessárias para evitar que, mais uma vez, o MST e seus cúmplices afrontassem o Estado de Direito e não cumprissem as determinações judiciais de não promover invasões.
5) A Vale não vai se calar diante das ameaças do MST ou da falta de responsabilidade de governantes, em especial no Estado do Pará, que se omitem diante de um crime há muito anunciado e que, por incompetência ou por conivência, estão assistindo a esta maré de crimes que nos últimos dias vem aterrorizando o Brasil.
6) Há muito tempo, a Vale vem alertando essas autoridades de que este clima de desrespeito ao Estado de Direito cria um péssimo ambiente para a atração de investimentos para o nosso país, em especial para o Pará, região que apresenta um dos maiores potenciais de crescimento e geração de renda e emprego.
7) O Conselho de Administração da Vale já aprovou um plano de investimentos que, entre 2008 e 2012, deve levar para a região cerca de US$ 20 bilhões e gerar mais de 35 mil novos empregos.
8) A Vale reafirma que não vai poupar esforços para proteger seus empregados, usuários do trem de passageiros, clientes e acionistas, já que a EFC é um importante veículo de transporte e desenvolvimento para o país.
9) Com a invasão, cerca de 1.300 pessoas deixam de poder viajar entre os estados do Pará e Maranhão. Além disso, fica comprometido o transporte de combustíveis para os municípios do sudeste do Pará.
10) Também está interrompido o transporte de cerca de 300 mil toneladas de minério e outras cargas, levando a uma perda diária de US$ 22 milhões para a balança comercial brasileira.
11) A Vale reafirma que não vai se deixar intimidar por um grupo que insiste em não respeitar a Justiça, e confia que as Polícias Federal, Militar e Civil do Estado do Pará vão agir com firmeza para restabelecer o Estado de Direito.
MST ocupa pelo menos 46 prédios públicos em 16 Estados para lembrar Massacre dos Carajás
UOL Thiago Varella e Fabiana Uchinaka Da Redação* Em São Paulo
* Atualizada às 18h16
Trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Sem Terra (MST) intensificaram nesta quarta-feira os protestos e as ocupações de terra e prédios públicos em 16 Estados e no Distrito Federal como parte da jornada nacional de luta pela reforma agrária, conhecida como "abril vermelho". Todos os anos o movimento lembra a morte de 19 trabalhadores rurais no Massacre de Eldorado dos Carajás (PA), em 17 de abril de 1996. Foram pelo menos 46 prédios públicos ocupados, entre bancos e órgãos estaduais e federais, seis fazendas invadidas e seis estradas bloqueadas.
Os manifestantes reivindicam o assentamento das 150 mil famílias acampadas no país, investimentos públicos em habitações para assentados e a criação de uma linha de crédito específica para a produção agrícola em assentamentos. Eles alegam que as famílias assentadas têm dificuldades para acessar o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Segundo o MST, o governo precisa acelerar os trâmites internos para os processos de desapropriação e aprovar o projeto de lei que determina que as fazendas que exploram trabalho escravo sejam destinadas para reforma agrária.
"A reforma agrária está parada no país por causa de uma política econômica que beneficia as empresas do agronegócio, concentra terras e recursos públicos na produção de monoculturas para a exportação", disse José de Oliveira, membro da coordenação nacional do MST.
Os protestos desta quarta-feira atingem Goiás, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Alagoas, Pernambuco, Pará, Sergipe, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte.
Protestos nos Estados Mais de mil integrantes do MST ocuparam a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Recife e em Petrolina, em Pernambuco, e 250 pessoas estão no prédio do instituto em Natal, no Rio Grande do Norte.
Cerca de 600 sem-terra e as viúvas dos agricultores assassinados em Carajás acampam em frente ao Palácio dos Despacho, sede do governo do Pará, e outros mil manifestantes estão acampados na curva do S, em Eldorado de Carajás, em memória aos assassinatos de 1996.
A sede da Caixa Econômica Federal no Distrito Federal foi ocupada por milhares de trabalhadores rurais, numa das maiores manifestações do dia, que terminou no final da tarde de hoje com uma audiência entre os representantes do movimento, o ministro Márcio Fortes (Cidades) e a presidente da Caixa, Maria Fernanda Ramos. O MST exige o cumprimento de um acordo feito entre o Incra e a Caixa para a construção de 31 mil moradias em assentamentos rurais.
Em Goiás, os protestos começaram nas primeiras horas da manhã, quando cerca de 180 famílias bloquearam o tráfego na BR-153, próximo a Porangatu (400 km de Goiânia). O movimento promoveu mais três manifestações na região: parte da BR-060 foi fechada nas proximidades de Guapó, parte da Fazenda Rio Vermelho, no município de Crixás, foi ocupada e uma agência do Banco do Brasil na cidade de Bom Jardim foi invadida.
800 trabalhadores sem-terras estão no prédio do Ministério da Fazenda no Rio Grande do Sul e mais 350 deles ocuparam a Secretaria da Agricultura, na capital Porto Alegre. Eles cobram a desapropriação da Fazenda Southall, em São Gabriel, área de 13 mil hectares desapropriada em 2003 pelo governo federal, cujo processo está suspenso no Supremo Tribunal Federal (STF). A Procuradoria Geral do Estado entrou com um pedido de liminar à Justiça solicitando a reintegração de posse das áreas ocupadas e os manifestantes deixaram o prédio da Secretaria durante a tarde.
Em São Paulo, militantes do MST derrubaram parte de uma plantação de eucalipto na fazenda da AmBev, em Agudos, interior de São Paulo, para supostamente substituí-la por uma de alimentos. Cerca de 300 pessoas ocuparam uma unidade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão público federal, em Bauru, por um programa de compra de alimentos produzidos em assentamentos. E o hall da Secretaria de Justiça, no Pátio do Colégio, foi ocupado por manifestantes do MST, da Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp), da Federação da Agricultura Familiar (FAP) e da Organização de Mulheres Assentadas e Quilombolas do Estado de São Paulo (Omaquesp) que pedem a federalização dos hortos florestais. Três agências bancárias no Pontal do Paranapanema, interior do Estado, também foram ocupadas por trabalhadores.
Manifestantes ocuparam a entrada do Porto de Maceió, em Alagoas, para defender a reforma agrária. O MST quer negociar com o governo do Estado terras do antigo Produban (Banco do Estado de Alagoas S.A). Em Jungueiro, uma área de 400 hectares foi ocupada por 200 famílias.
Em Sergipe, 150 famílias ocuparam a Agência do Banco do Nordeste em Carira, outras 150 ocuparam a Fazenda Oiteiro, em Siririzinho, mais 120 estão na Fazenda Samambaia, em Santo Amaro, e 220 famílias ocupam a Fazenda Brígida, em Estância. O MST lembra a morte do trabalhador Zé Emídio, morto na fazenda Santa Clara, em Capela.
Uma rodovia em Itaquiraí, no Mato Grosso do Sul, foi fechada e 250 famílias protestaram em frente ao Banco do Brasil. Em Campo Grande, 300 pessoas participam de audiência no Incra.
No Rio de Janeiro, cerca de 150 trabalhadores rurais interditaram a Via Dutra, na altura do KM 242, sentido São Paulo, antes de serem expulsos pela polícia e houve protestos em agência da Caixa em Volta Redonda e em Campos, interior do Estado.
A Estação Experimental Manoel Machado da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola está ocupada por 200 famílias desde segunda-feira.
Manifestações em agências bancárias No Maranhão, uma agência da Caixa foi ocupada e houve protesto no Ibama da região para exigir a imediata interdição da carvoaria da Vale, próximo ao assentamento Califórnia.
Manifestações também foram registradas em agências da Caixa e do Banco do Brasil nas cidades de Pinheiros, Pancas, Santa Teresa, Cachoeiro do Itapemirim, São Mateus e São José do Calçado, todas no Espírito Santo; em Rio Negrinho, Canoinhas, Curitibanos, Caçador e em Lebon Regis, municípios de Santa Catarina; e em 14 cidades do Paraná.
A assessoria de imprensa do Banco do Brasil informou que houve manifestações em 13 agências em todo país, que ficaram parcialmente bloqueadas até o fim do expediente bancário. Em Curitiba, os gerentes receberam os líderes do movimento, que entregaram uma pauta de reivindicações, que será entregue às autoridades competentes.
No Mato Grosso, cerca de 350 famílias estão acampadas na Caixa, em Cárceres. Uma audiência com o Incra da região foi marcada para a tarde de hoje e o MST pretende cobrar o assentamento de 3.500 famílias.
*Com informações da EFE e da Agência Estado, colaborou Sebastião Montalvão em Goiânia
FOTO:caminhão totalmente depredado: um dos inúmeros veículos destruidos pelo MST na Fazenda Coqueiros.
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É de vital importância que você baixe e assista a essa apresentação do Power Point sobre as freqüentes invasões à Fazenda Coqueiros. Passe agora mesmo o arquivo também para seus amigos, é só clicar no pequeno envelope que aparece logo abaixo desse texto e enviar para quem quiser. Esse arquivo é uma pequena amostra das atrocidades e crimes cometidos pelo MST e é muito importante que as pessoas tomem conhecimento do grupo criminoso e sem limites que é o MST.
O MST vive a invadir a Fazenda Coqueiros, pois ela é estratégica para o movimento ordinário. As áreas pertencentes à família Guerra somam 7 mil hectares. A área é considerada pelo MST um dos raros latifúndios existentes no norte do Estado do Rio Grande do Sul e um ponto estratégico por ser vizinha à Annoni e à Encruzilhada Natalino, onde o movimento nasceu. A área foi considerada produtiva pelo governo federal. Mas ainda assim esse movimento de bandidos insiste em invadí-la, o que mostra seu caráter demagogo e violento.
Integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) impediram o acesso de funcionários e treminhões à Usina Açucareira Ester S/A, em Cosmópolis, região metropolitana de Campinas, do fim da manhã até o meio da tarde de ontem. A empresa interrompeu a moagem de cana e a produção de álcool e açúcar por cerca de quatro horas. Representantes da usina não quiseram se manifestar e não foram divulgados prováveis prejuízos.
O protesto foi para forçar a abertura de uma porteira recém-instalada que impedia a passagem dos sem-terra por uma estrada que leva ao Assentamento Milton Santos, localizado em Americana, onde estão 100 famílias desde 2006. Os sem-terra reclamaram que a estrada é pública e quebraram cadeados.
A liberação dos acessos foi pacífica e contou com a intermediação do prefeito de Cosmópolis, José Pivatto, policiais militares e executivos da empresa. Depois, os sem-terra seguiram sua marcha.
Ontem, a regional paranaense da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias divulgou que o prejuízo com a ocupação de 11 praças de pedágio no dia 17 pelo MST causou prejuízo de R$ 502.230,80. COLABOROU EVANDRO FADEL
Atiçados pela ineficiência do governo federal, que continua adiando a reforma agrária, os invasores de terra e bandos armados ocupam fazendas nos municípios do sul do Estado do Pará, expulsam empregados, matam ou roubam bois, queimam residências e derrubam a floresta. E o pior é que os criminosos nunca são punidos. E não pára por aí. Decisões do Judiciário, cumpridas com evidente parcimônia pelas autoridades estaduais, transformam a delicada questão fundiária em brincadeira de desenho animado do tipo gato e rato: logo que os policiais deixam as propriedades, após cumprir as reintegrações de posse, os invasores retornam ainda mais violentos, destruindo tudo o que encontram pela frente.
Tudo isso provoca prejuízos materiais e a ira de alguns fazendeiros. Os atos criminosos são o combustível de uma guerra que parece longe de acabar e já produziu perto de mil mortes nos últimos 30 anos. As entidades de pecuaristas estão se organizando para adotar uma nova estratégia, cujo alvo será o governo; ações judiciais serão impetradas para cobrar indenizações pelos prejuízos sofridos. Num cálculo estimado, segundo os fazendeiros, 190 propriedades rurais estariam hoje invadidas por famílias de trabalhadores sem terra e quadrilhas de ladrões de madeira e gado. Os prejuízos alcançariam mais de R$ 100 milhões.
'Quem produz e gera emprego no campo é tratado como bandido, enquanto os verdadeiros crimosos, que saqueiam, destroem, humilham e matam, são tratados pelo poder público como coitadinhos', desabafa o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado do Pará (Faepa), Diogo Naves Sobrinho. A pressão que a entidade tem sofrido para tomar uma atitude dentro da lei colide com a intenção de pecuaristas desesperados, que anunciam a disposição de contratar homens armados para expulsar os invasores de suas terras.
TERROR
Diogo Naves enumera fazendas nas quais os invasores agem como se fossem proprietários, enquanto os verdadeiros donos estão proibidos de entrar em suas terras. É o caso da fazenda 'Balalaica', no município de Paragominas, onde a Polícia Militar (PM) prepara uma operação de reintegração de posse. Em maio deste ano, 26 pessoas foram presas na área e levadas para a delegacia da cidade. Nove serraram as grades e fugiram. A fazenda, considerada produtiva, abriga três mil cabeças de gado. Os empregados foram proibidos pelos invasores de permanecer na propriedade. Para dificultar a ação da PM, as pontes foram queimadas. O curral e casas dos empregados também foram incendiados.
Um detalhe desperta a atenção na 'Balalaica'. A fazenda possui 20 mil hectares de floresta, uma raridade na região quase já totalmente devastada pela atividade madeireira. E disso se aproveitam madeireiras clandestinas para derrubar diariamente a mata e retirar tudo o que podem com seus tratores e caminhões. Todo dia, sem fiscalização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), quatro caminhões lotados de toras deixam o local.
Em Eldorado do Carajás, uma das fazendas mais atingidas pelo vandalismo é a 'Santa Maria'. Localizada em frente a outra fazenda destruída, a 'Peruano', a 'Santa Maria' tem dez mil hectares. Os invasores roubaram 700 reses. A proprietária, Maria Amélia Facury, jogou a toalha. Desistiu de acumular prejuízos e está negociando a desapropriação com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
No caso da 'Peruano', os problemas já duram quatro anos. Pertencente ao pecuarista Evandro Mutran, a fazenda tinha um dos maiores plantéis genéticos de gado do país. A propriedade abrigava oito mil reses e foi toda saqueada. A destruição também atingiu o sêmen e os embriões que estavam depositados no local. Um boi da raça nelore, premiado nacionalmente e avaliado em mais de R$ 1 milhão, virou churrasco nas mãos dos invasores.
A fazenda 'Juazeiro', localizada a 19 quilômetros do município de Parauapebas, foi invadida pela segunda vez por um bando de pessoas armadas, liderado por Raimundo Italiano, que teve a prisão decretada pela Justiça, que depois acabou suspensa pelo Juízo da região. O Sindicato dos Produtores Rurais de Parauapebas vai pedir que Raimundo Italiano seja preso por implantar um clima de terror na propriedade. O acusado estaria envolvido na invasão de outras seis fazendas, além do roubo de cargas.
A invasão ocorreu na primeira semana deste mês, com o saque e depredação da propriedade de 1,5 mil hectares. O grupo levou vários objetos de valor como ar-condicionado, geladeira, televisores, máquinas fotográficas, colchões, uma moto XTZ, utensílios, roupas, além de 200 porcos e 300 galinhas. Além disso, mataram animais da fazenda, queimaram as pastagens, a casa dos vaqueiros e os depósitos de sal mineral.
Fazendeira denuncia saques e ameaças de morte em Parauapebas
A dona da fazenda 'Juazeiro', Maria do Socorro Mangabeira Marques, está chocada com tamanha crueldade. Ela contou que desde outubro do ano passado, o grupo liderado por Raimundo Italiano fazia ameaças de invasão a sua propriedade. A primeira ocorreu em janeiro deste ano. 'Eles invadiram a fazenda pelos fundos e montaram um acampamento. Logo no início, estavam calmos, mas depois começaram a nos proibir de fazer as nossas atividades', relatou em depoimento prestado à assessoria do Sinproduz de Parauapebas.
Os empregados foram proibidos de retirar os frutos dos pés de manga que estão nos fundos da fazenda e impedidos de colocar o gado nas pastagens, além de roçar ou mesmo fazer a manutenção das cercas. Os invasores estavam sempre armados. No final de abril, a fazenda foi desocupada, mas a tranqüilidade durou pouco. As ameaças recomeçaram. Por telefone, eles diziam que ela ia ver o que era mexer com sem terra. Com medo de morrer, deixou a propriedade temporariamente também para cuidar da saúde da mãe. Disso se aproveitaram os invasores para reocupar a fazenda.
'Infelizmente, minha mãe não resistiu e faleceu. Como se não bastasse essa dor, tenho que me deparar com a minha fazenda destruída e saqueada. Eles aproveitaram a minha ausência, não com objetivo de ocupar a fazenda para chamar atenção dos órgãos que fazem a reforma agrária, mas sim para saqueá-la', constata a fazendeira. Para ela, o que acontece na região já ultrapassou o chamado movimento dos sem terra. É hoje, de acordo com a fazendeira, uma verdadeira quadrilha de ladrões e bandidos.
Socorro Marques diz não ser contra a reforma agrária, mas quer que ela seja executada não com brutalidade, violência e esbulho de propriedades rurais. A fazendeira é uma mulher sozinha. Ela garante que não desistirá de lutar por sua fazenda e espera por justiça. A polícia sabe da história que envolve a fazenda e o que vem acontecendo desde o assassinato do marido de Socorro, há dois anos.
O objetivo dos invasores, diz ela, é desestruturá-la. Mas promete continuar lutando até quando puder e tiver forças. 'Acho que nessa região existem seres humanos e nós queremos acreditar que ainda existe justiça', salienta. A invasão e as ameaças foram registradas na Delegacia de Polícia de Parauapebas. No mesmo dia, a polícia visitou a propriedade, fazendo registro fotográfico da área. A delegacia informou que o material será encaminhado para Belém. (C. M.)
Raimundo Italiano é acusado de liderar bando que destrói fazendas
Não é a primeira que vez o bando de Raimundo Italiano invade propriedades na região. Em 2004, ele invadiu a fazenda 'Pampulha', no município de Canaã dos Carajás, onde depredou a propriedade, queimou pastagens, roubou gado, um pneu de trator e ainda manteve funcionários da fazenda em cárcere privado. O caso teve repercussão nos principais meios de comunicação do país. Em 2005, o grupo invadiu e tomou a sede da fazenda 'Rio Verde', no município de Curionópolis, por mais de 90 dias, praticando todo tipo de roubo.
O grupo desocupou as fazendas 'Rio Verde' e 'Pampulha', após ter a reintegração de posse determinadas pela Justiça. Mas as invasões não pararam por aí. Ainda sob a liderança de Raimundo Italiano, o bando invadiu a fazenda 'Santo Antônio'. Lá, os invasores praticaram roubos, matança de bois e vacas e queima de cercas e pasto, o que obrigou o proprietário a retirar todo o gado da fazenda. Ainda em 2005, houve a invasão da fazenda 'Santa Fé', a 35 quilômetros de Canaã dos Carajás.
A fazenda é produtiva e documentada, inclusive com registro em cartório, mas permaneceu ocupada por um ano. Foi desocupada pela Polícia Militar, que cumpriu o mandado de reintegração de posse expedido pela Vara Agrária de Marabá. Durante o período de ocupação, os proprietários sofreram diversos prejuízos: roubo de gado, madeira e trator, depredação da área e agressão aos funcionários da fazenda. Passada a turbulência, os proprietários retomaram as atividades na fazenda.
O Sinproduz quer providências das autoridades para que a sociedade organizada não fique refém de bandos armados e quadrilhas. E lembra que propriedades invadidas não podem ser vistoriadas nem desapropriadas por um período de dois anos. Quem invade a propriedade privada, segundo a entidade, não quer terra. Manifesta sua solidariedade a todos que estão com suas propriedades invadidas ou sofrem ameaças de invasão e 'reafirma seu apoio e compromisso com o desenvolvimento do setor rural'. (C. M.)
RAIOS-X
Veja alguns dados sobre a ação criminosa dos invasores de propriedades rurais no Pará:
Número de fazendas invadidas:
190
Prejuízos aos fazendeiros:
R$ 100 milhões
Como agem
ataques, destruição e incêndio de casas, matança e roubo de gado.
Métodos
ameaças de morte, reféns entre empregados, agressões e humilhação.
Impasse judicial faz aumentar a tensão na propriedade 'São Marcos'
A fazenda 'São Marcos', localizada a 15 quilômetros do Centro do município de Parauapebas, foi ocupada no dia 18 de abril deste ano por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Após um mês de ocupação, o Tribunal de Justiça do Estado (TJE) do Pará, por meio da Vara Agrária de Marabá, concedeu medida liminar de ação de manutenção de posse para os donos da fazenda. Mas, às vésperas do cumprimento - marcado para a semana passada -, a liminar foi cassada pelo mesmo TJE.
Os proprietários recorreram da decisão e aguardam a expedição de novo mandado de manutenção de posse. Eles garantem que a fazenda é produtiva, legalizada e que cumpre sua função social no âmbito rural. Além disso, é uma das poucas áreas com georeferenciamento realizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em todo o Pará, apenas nove propriedades rurais no Pará possuem o sistema de georeferenciamento. De acordo com os proprietários da 'São Marcos', o MST, motivado pela cassação da liminar, sentiu-se mais à vontade para continuar depredando e esbulhando a propriedade.
O grupo queimou as pastagens - o que obrigou os proprietários a vender às pressas 1.508 bois -, e destruiu diversas cercas e cocheiras. Além disso, os invasores estariam utilizando táticas de guerilha no acampamento, montando trincheiras e barricadas. A sede da fazenda está ameaçada de invasão e depredação.
Além de fazer ameaças aos proprietários, o MST também tenta intimidar o poder público, provocando tumultos ao interditar estradas da região, segundo acusação do Sinproduz. No dia 4 de maio, o MST ateou fogo em uma carreta bi-trem, o que impediu o tráfego na rodovia PA-275 e ainda gerou um prejuízo de mais de R$ 600 mil. (C. M.)
Hoje, todos os meios de comunicação de massa estão difundindo notícias de manifestações do MST para rememorar os dez anos do “Massacre de Eldorado dos Carajás”. Na televisão, aparecem novamente as cenas de hordas armadas de foices e enxadas atacando a tropa da Polícia Militar do Pará que, acuada, recua atirando. Como já vi tais cenas muitas e muitas vezes, noto que a cada ano estão mais censuradas. Atualmente nem aparecem mais os rostos apavorados dos soldados.
Em todo o país estão sendo promovidas invasões de terras para “comemorar” o infeliz evento. Em Pernambuco, um dos invasores, entrevistado, reclamou da falta de justiça que permite que esteja em liberdade o comandante do batalhão encarregado de restabelecer a ordem em Eldorado dos Carajás. O saque de um caminhão carregado com biscoitos fez parte dessas “comemorações”, bem como a interdição de diversas rodovias federais e estaduais.
Hoje, provavelmente essas cenas tomarão conta dos mais importantes jornais do mundo, a demonstrar que nosso pobre país ainda não aprendeu a se administrar e está muito longe de sair do estágio de subdesenvolvimento.
Vêm-me à lembrança, então, as “ligas camponesas” que, no Nordeste, na década de 60, invadiam fazendas e aterrorizavam trabalhadores. Lembro-me bem do medo que vi estampado nos rostos dos militares da PM do Pará, em 1996, numa clara demonstração de que aquela tropa havia perdido a confiança em seus chefes e não tinha mais a menor condição de ser empregada, o que obrigou a mobilização de frações do Exército.
Em nosso Brasil “moderno”, multidões de desempregados freqüentam aulas de guerrilha em escolas que já não podem nem ser chamadas de clandestinas, de vez que operam à luz do dia, nas barbas do governo. Nas estradas e nos campos, vagueiam hordas armadas com paus, foices, machados e enxadas, a invadir propriedades privadas, a queimar plantações, a matar homens e animais e a destruir máquinas agrícolas, qual novos bárbaros a serviço de um novo Átila.
E nossas autoridades assistem a tudo absolutamente impassíveis. Será que não estudaram a História? Por que a Justiça não exerce seu poder coercitivo? Por que os governos estaduais não asseguram a ordem pública, como é sua obrigação? Por que a Polícia Federal não desobstrui as estradas, como é seu dever? Por que se omitem todos, deixando ao cidadão de bem, ao empresário, ao fazendeiro, o ônus de se defender e, depois, o tratam como criminoso, como responsável único pelas “mortes no campo”? Por que o Governo Federal apóia os invasores e lhes fornece alimento mesmo sem, para isso, dispor de recursos orçamentários? Por que são toleradas paternalisticamente as invasões de repartições e prédios públicos?
Senhores, até onde esperamos que vá a paciência do povo?
Conheci Fernando Henrique Cardoso quando, em 1990, na TV Manchete de Brasília, entrevistado por Carlos Chagas, fui explicar as reformas (“desmonte”) do governo Collor na área da Cultura. Ali estava o quase janota FHC, senador, palavra fácil, vasilinoso, o cabelo indefinido de quem, mais tarde, já feito presidente da República, revelou à nação que tinha “um pé na cozinha” – com isto querendo dizer, com um tanto de indigente sociologia, que era um ser racial e socialmente híbrido (o que não precisava, pois ele - como eu próprio, de resto - carrega a mestiçagem estampada nas faces). Nos cumprimentamos, FHC deu seu recado, eu dei o meu e nunca mais nos vimos.
Mas, eis a verdade incontornável: se o Brasil moderno está do jeito que está, em grande parte o fato se deve a figuras como Fernando Henrique Cardoso, típico intelectual gramsciano que fez (e faz) da falida social-democracia, uma espécie de socialismo camuflado, a ponte para atingir o pináculo e usufruir as benesses do poder e da falsa glória. De fato, FHC foi e continua sendo mais um desses professores universitários representativos da América Latina que, cevados nas teorias do marxismo-leninismo, em especial nas que investem nas parolagens da mais-valia, da alienação e da demonização do capital internacional, terminam por chegar ao historicismo palatável de Max Weber para vender a gororoba do intervencionismo estatal. O seu livro sobre a teoria da dependência nas relações internacionais, bolado em parceria com Enzo Filetto, outro “confidente da Providência”, sugeria que os países subdesenvolvidos deviam se associar e buscar entre si os próprios caminhos para chegar ao desenvolvimento, livrando-se do jugo das grandes potências. (Mais tarde, já na presidência da República, ingressando com o patrocínio de Bill Clinton no universo bem-remunerado dos conselhos & comissões internacionalistas, FHC deixou de lado o que tinha escrito).
Agora, numa entrevista concedida à revista Veja, para caitituar uma espécie de autobiografia política passada a limpo pelo jornalista Ricardo Setti, o nosso FHC, pleno de vaidades, reaparece e deita sua pretensiosa falação. Mas, a julgar pelas considerações que tece, o conhecimento do nosso ilustre sociólogo é caolho: ele cita Vico, Machiavel, Weber, Marx, Bobbio, Sérgio Buarque de Holanda e outros que tais, mas desconhece economistas e pensadores modernos (que afundaram o marxismo) do porte de Eugene von Böhm-Bawerk, Vilfredo Pareto, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Aron, Rothbard, Buchanan (o da “Escola da escolha pública”) e Erik Voegelin, para não falar do próprio Aristóteles, cuja permanente atualidade, o “intelectual orgânico” da USP, por causa da estreita visão materialista, não consegue enxergar. Ao cabo da entrevista, somos obrigados a repetir a diatribe de Marx em cima de Proudhon (o verdadeiro pai da sociologia, uma falsa ciência): FHC não passa de um “pavão prepotente, superficial e excessivamente vaidoso”.
Com efeito, para vender o seu peixe, provavelmente ressentido, FHC parte para cima do capitalismo, depois de saltitar sua dialética arrevesada em torno de “bons” que viram “maus” e de “maus” que viram “bons”. Diz ele: “... o capitalismo tem um problema que me irrita: a desigualdade...
É de sua essência. No capitalismo, o mercado – e olha eu aqui desabafando outra vez – traz um elemento de desigualdade e também de irracionalidade”. E, logo em seguida, o sociólogo caboclo arremata: “... o Estado, dependendo de como ele seja organizado, pode introduzir um ingrediente adicional de correção da desigualdade”.
Eis aqui, em duas sentenças, o retrato perfeito do empulhador social-democrata. Por quê? Bem, em primeiro lugar, porque nada pode ser associado à idéia de igualdade, visto que, “em essência”, a igualdade nunca existiu e nunca existirá. Só as maquinações demagógicas da “engenharia social” ou os devotados charlatões da política do bem-estar social proclamam tal miragem. O pasto do capitalismo é a liberdade, o direito à vida e à propriedade - o que, em última análise, consubstancia o velho Estado de Direito, tido pelos agentes da esquerda como “burguês”. (De resto, foi graças a ele que o capitalismo gerou, na prática, o maior aparato de inclusão social existente na face da terra, jamais alcançado por qualquer sistema socialista, incluindo-se a social-democracia).
Por outro lado, a idéia de que “o Estado, dependendo de como ele seja organizado, pode introduzir um ingrediente adicional de correção da desigualdade”, na realidade, não passa de uma falácia irracional e ordinária. Para não falar do Brasil - onde o Estado social-democrata de FHC só premiou instituições criminosas como o Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, que de uma só tacada deu um prejuízo de 6 bilhões de dólares aos cofres da Viúva (leia-se bolso do contribuinte), além de conceder alarmantes benesses às quadrilhas organizadas do tipo MST - cite-se, na Europa social-democrata, indutora do pensamento de FHC, os casos ilustrativos da França e da Alemanha, países hoje atolados na mais completa estagnação econômica, ambos acossados pelo desemprego em massa, a sofrer o clamor de cidades soterradas pela violência da guerra civil e, no caso de Paris, de população que já ultrapassa a casa das 800 mil pessoas a vegetar nas ruas.
Em suma: não vou gastar mais tinta com FHC, na imagem do trêfego Glauber Rocha, um “príncipe” da nossa sociologia. Mas, no desejo de ajudar o leitor a entender melhor tão distinta personalidade, recorro ao próprio sociólogo, quando, entre risos de puro gozo, esclareceu ao repórter sua híbrida origem:
- Bem, meu filho. De fato – disse – tenho um pé na cozinha... francesa!
“Entendemos que o governo do Brasil deve defender os interesses de seu povo e não do setor agro-exportador. Por isso, exigimos que o governo articule a suspensão das negociações na OMC”.
(Trecho de carta aberta, escrita em espanhol, da Via Campesina ao presidente Lula em 11 de março de 2006)
A Via Campesina intitula-se um movimento internacional que coordena organizações camponesas, pequenos e médios produtores, mulheres rurais, comunidades indígenas, gente sem terra, jovens rurais e trabalhadores agrícolas migrantes. Diz-se um movimento autônomo, plural, independente, sem nenhuma filiação política, econômica ou de outro tipo. É composta por 135 organizações de 56 países da Ásia, África, Europa e continente americano, organizadas em 8 regiões: Europa, Leste e Sudeste da Ásia, América do Norte, América Central, Caribe, América do Sul e África.
Quatro organizações brasileiras integram a Via Campesina: Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais (ANMTR); Movimento de Atingidos por Barragens (MAB); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).
A idéia da constituição de uma organização mundial teve sua origem em abril de 1992, quando vários líderes camponeses da América Central, América do Norte e Europa estiveram reunidos em Manágua, Nicarágua, no Congresso da União Nacional de Agricultores e de Criadores de Gado. Em maio de 1993 foi realizada uma Conferência em Mons, Bélgica, ocasião em que foi constituída essa organização mundial que adotou a denominação de Via Campesina. A II Conferência Internacional foi realizada em Tlaxcala, México, em abril de 1996, da qual participaram 69 organizações de 37 países. Quatro anos depois, no ano 2000, a III Conferência foi realizada em Bangalore, Índia.
Rafael Alegria, um hondurenho, é o Secretário Internacional da Via Campesina.
A IV Conferência, em 14/20 de junho de 2004, foi realizada em Itaici, São Paulo, precedida, no mesmo local, pela II Assembléia de Mulheres e I Assembléia de Jovens. “Organizemos a Luta! Terra, Alimento, Dignidade e Vida!” foi o tema dessa Conferência e as deliberações orientadas no sentido de (www.viacampesina.org):
- fortalecer e redefinir as políticas de alianças projetando sua ação no conjunto dos movimentos sociais;
- integrar as estratégias e ações internacionais futuras no trabalho das organizações nacionais;
- desenvolver mecanismos para a capacitação e formação de líderes internacionais;
- promover e fortalecer a participação geral das mulheres e dos jovens na Via Campesina.
O presidente Lula e o Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu, embora convidados, não participaram da IV Conferência, em Itaici. Nesse sentido, com data de 19 de junho, o então ministro José Dirceu enviou uma carta à Via Campesina. Nessa carta, José Dirceu afirmou que: “(...) Quero manifestar que se não estou presente nessa comemoração, a verdade é que estamos juntos nessa luta há muitos anos. Nossas histórias se confundem. A história do MST, do PT, minha história e a história de cada um dos que estão nesse encontro de hoje. (...) Para finalizar, quero dizer que neste momento, somente nossos papéis são distintos, pois continuamos todos do mesmo lado, na mesma luta”.
Realmente, nesse momento os papéis da Via Campesina e do Ministro José Dirceu eram distintos: a Via Campesina invade e destrói empreendimentos florestais e cultivos transgênicos (Aracruz Celulose e Monsanto), e José Dirceu, então, implantava e coordenava o crime público organizado.
Na Declaração Final da IV Conferência, a Via Campesina assinalou: “Estamos em oposição total ao modelo neoliberal, que mata e destrói culturas, povos e famílias camponesas no mundo inteiro”.
Ora, quem “destrói culturas”, como se viu dia 8 de março de 2006, Dia Internacional da Mulher, no horto florestal da empresa Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, Rio Grande do Sul, não é “o modelo neoliberal”, mas os internacionalistas da Via Campesina! Mais: essa bandidagem ocorreu durante a realização da II Conferência Internacional da Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural que se realizava em Porto Alegre. Antes dessa Conferência, a Via Campesina solicitou recursos ao ministro Rosseto para a realização de um encontro paralelo denominado “Fórum Terra, Território e Dignidade”. No documento remetido ao ministro Rosseto, a Via Campesina afirmou : “Consideramos que é responsabilidade do governo garantir a participação”. O ministro se comprometeu a oferecer esses recursos para o encontro paralelo, pois “vamos assegurar a participação da sociedade”, disse (www.mpabrasil.org.br).
Na ocasião, João Pedro Stedile, um boquirroto dirigente do MST e membro da direção da Via Campesina, em um discurso, afirmou que “nas últimas duas décadas enfrentamos uma nova etapa do capitalismo, que se caracteriza pelo domínio do capital financeiro que alcança a todos os países através da globalização, que é o mecanismo que o capital financeiro utiliza para poder atuar nos países e em todos os setores da economia”. Afirmou também que é preciso repensar o papel do Estado: “Por isso nossos movimentos devem defender a soberania nacional e o rol desse outro Estado, que é o único poder do povo que pode fazer mudanças e ajudar a construir uma sociedade menos desigual. E temos que juntarmo-nos para enfrentar os organismos internacionais e os acordos que eles fazem e que representam os interesses do capital” (www.viacampesina.org).
Na prática, essas palavras de Stedile não deixam de ser incoerentes, pois o energúmeno não se preocupou em “defender a soberania nacional” quando incitou a bandidagem da Via Campesina composta por estrangeiros e mulheres do Movimento das Mulheres Camponesas, a maioria utilizando capuzes, a depredarem o laboratório e o viveiro da Aracruz Celulose, destruindo todo o material genético resultante de cruzamentos que vinham sendo feitos há 20 anos para melhorar a produtividade das plantações de eucaliptos. Também foram destruídas 4 milhões de mudas. As mulheres usaram armas artesanais para dominar e amarrar dois seguranças e espalharam 500 quilos de sementes pelo chão, inviabilizando as pesquisas.
Nessa IV Conferência a Via Campesina declarou seu apoio formal ao governo da Venezuela e se solidarizou com Hugo Chavez, com as organizações e com o povo venezuelano. Fidel Castro também contou com o apoio das organizações vinculadas à Via Campesina, “em virtude do recrudescimento das ofensivas estadunidenses aos cubanos”. Esse apoio foi estendido aos povos árabes, especialmente a iraquianos e palestinos.
Além de Stedile, também Egídio Bruneto, um dos dirigentes do MST, integra o grupo de dirigentes da Via Campesina.
Após depredarem a Aracruz Celulose, os militantes foram para Porto Alegre onde tentaram invadir uma loja do McDonalds e forçaram a entrada na PUC, onde se realizava a II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, promovida pela FAO e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. No local, o grupo enfrentou a Brigada Militar e, após uma negociação comandada por uma mulher que falava espanhol, entrou no prédio uma delegação de 50 pessoas para entregar um Manifesto.
Pouco antes, em Coqueiros do Sul, a 320 quilômetros de Porto Alegre, cerca de 500 sem-terra tentaram invadir a fazenda Guerra, enfrentaram a Brigada Militar armados com foices, espingardas, coquetéis molotov, usando toucas ninja e escudos de lata e cortaram a energia do alojamento que a Brigada mantém junto à propriedade. Em 11 de março de 2006, segundo a imprensa, durante a desocupação da fazenda, três sem-terra foram presos. O motivo das prisões foram furtos de objetos, danos ao patrimônio público causados pela depredação de uma viatura da Brigada Militar, que teve os quatro pneus cortados, e de cárcere privado de dois policiais no dia da ocupação da área.
No mesmo dia, no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, diversas propriedades foram invadidas em Presidente Venceslau, Caiuá, Mirante do Paranapanema, Santo Anastácio e Teodoro Sampaio, por cerca de 600 sem-terra, a maioria mulheres comandadas por Deolinda Alves de Souza, mulher de José Rainha. Também em Andradina, São Paulo, a bandidagem se fez sentir: cerca de 400 militantes do MST, a maioria mulheres, no dia 8 de março ocuparam a Fazenda Santa Maria, bloquearam a rodovia vicinal que margeia a propriedade e atearam fogo em duas toneladas de cana retiradas de caminhões e despejadas na estrada, incendiaram 5 hectares da plantação de cana, abateram cabeças de gado e destruíram cercas e o pasto da área.
Na mesma semana, em Pernambuco, mais 11 fazendas foram ocupadas, elevando para 30 as propriedades invadidas nos últimos cinco dias.
Paralelamente, em Goiás, ainda no Dia Internacional da Mulher, cerca de 500 militantes do MST e de outros movimentos invadiram a fazenda Toca da Raposa, entre as cidades de Planaltina (DF) e Formosa (GO) e, à tarde, o grupo fechou a BR-020, estrada que liga Sobradinho a Planaltina. Foi a terceira invasão em uma semana no Estado de Goiás.
No dia seguinte a todos esses acontecimentos, João Pedro Stedile elogiou as ações dos integrantes da Via Campesina que participaram da destruição do horto florestal da empresa Aracruz Celulose. Disse ele: “As mulheres estão de parabéns por fazer um ato que chamou a atenção da sociedade”.
Em março de 2005 o diretor do Movimento dos Pequenos Agricultores, Romário Rosseto, primo do Ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, que representava a Via Campesina junto ao Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão responsável por traçar as políticas do Fome Zero, em uma carta ao presidente Lula renunciou ao cargo e saiu criticando o governo, afirmando que “mesmo contra a posição do Consea, o governo sancionou a Lei da Biossegurança, que liberou a venda de transgênicos”. Criticou também a lentidão do governo em fazer a reforma agrária e demarcar as terras indígenas e quilombolas. Escreveu que “é desrespeitosa a forma com que o governo tem tratado as questões agrárias”, queixando-se das poucas verbas (sic) a elas destinadas.
Todavia, não foram apenas a Monsanto, durante a realização do I Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em janeiro de 2001, e a Aracruz Celulose agora, em março de 2006, as vítimas da bandidagem da Via Campesina e de sua extensão no Brasil, o MST. Na madrugada de 26 de outubro de 2005, cerca de 1.500 integrantes dessas organizações, transportados de várias cidades do Estado do Rio Grande do Sul, em 29 ônibus fretados, invadiram a distribuidora de alimentos Standard, em Esteio, e saquearam a empresa, levando 400 toneladas de alimentos e causando um prejuízo de dois milhões de reais. Embora os nomes dos passageiros dos 29 ônibus constassem das listas de que obrigatoriamente são exigidas para esse tipo de transporte, ninguém foi preso. Tampouco os alimentos foram recuperados mas, mesmo que o tivessem sido não mais se prestariam para o consumo, pois foram descongelados. "Pobre país, onde as autoridades assistem impassíveis a invasões de propriedade alheia, seguidas de roubo e vandalismo. Será preciso que o palácio seja também invadido e saqueado para que haja uma reação?" (palavras de Roberto Fendt, presidente do Instituto Liberal, no site da entidade).
No episódio da depredação da Monsanto, ocorrido em 2001, em uma sexta-feira, o ativista francês José Bové, também dirigente da Via Campesina que chefiou a invasão, foi intimado pela Polícia Federal, na segunda-feira seguinte, a deixar o país. Todavia, permaneceu mais alguns dias, amparado em um habeas-corpus concedido pela Justiça Federal. Antes do embarque para a França, entretanto, afirmou, com arrogância, que “a Polícia Federal está a serviço das multinacionais” após ter sido recebido no Palácio Piratini, juntamente com outros 14 estrangeiros pelo governador Olívio Dutra.
Finalizando, alguns trechos de um texto assinado pelo jornalista Reinaldo Azevedo, publicado em O Globo de 11 de março de 2006, com o qual o autor deste artigo concorda:
“O lugar de João Pedro Stedile, o líder do movimento fantasma chamado MST, é a cadeia. Em vez disso, recebe verba do governo para promover o terrorismo e a chantagem. Ele fez a apologia escancarada do crime ao endossar a invasão do laboratório da Aracruz. Endossar? O movimento organizou o assalto e contou com a ajuda oficial. O Incra pagou os ônibus e mobilizou a polícia para que eles não fossem interceptados na estrada. A subversão da ordem, o esbulho constitucional e a agressão de uma penca de leis contam com um general de peso – e não é Miguel Rosseto, o ministro da Reforma Agrária, um empregado moral de Stedile. Refiro-me a Luiz Inácio Lula da Silva. O apedeuta já envergou mais de uma vez o uniforme da guerrilha stediliana: o boné do MST.
(...) De onde nasce o poder dessa gente? Do não-cumprimento da lei. E quem promove o esbulho legal? O governo. No caso do crime organizado, as Forças Armadas deveriam ter sido convocadas antes. Não para bater em pobre. Mas para arriar a bandeira do tráfico e hastear a Nacional. É uma guerra por território. No caso do MST, o governo não cumpre a Medida Provisória anti-invasão e repassa a maior parte dos recursos destinados ao setor a uma entidade que nem mesmo tem existência jurídica – que, enfim, não precisa prestar contas a ninguém. O resultado: Lula assenta menos gente do que FHC, com muito mais mortes. O MST, no entanto, nunca esteve tão forte.
E quem comanda essa justiça bastarda? O ministro... da Justiça! Foi ele quem, certa feita, comentando a não-aplicação da MP contra as invasões, pregou o que chamou de ‘acomodação tática’ da Constituição. É o mesmo que, agora, diante da flagrante tentativa do Congresso de fraudar a Constituição para derrubar a verticalização, chamou a exigência contida na Carta (é proibido mudar a regra eleitoral menos de um ano antes do pleito) de ‘fetiche’. Ou seja, para o homem do Executivo encarregado de fazer valer o código legal, o que nele vai escrito não vale.
(...) Chegou a hora de Stedile ser corajoso e arrombar a porta de um banco. Invadir o laboratório da Aracruz é para covardes, companheiro!”
Em abril, são esperadas manifestações do MST e da Via Campesina, em Belo Horizonte, durante a 47ª Reunião Anual da Assembléia de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O inusitado de tudo isso é a naturalidade e a leniência com que este governo que não rouba e não deixa roubar, que veio para implantar a ética na política, aceita e até apóia, como fez o ministro Miguel Rosseto – ele próprio militante de uma organização seção da Quarta Internacional no Brasil -, a atuação de um grupo internacional “neste país”, invadindo propriedades privadas, destruindo empresas, enfrentando e depredando veículos da Brigada Militar e mantendo policiais em cárcere privado, como ocorreu em Coqueiros do Sul.